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domingo, 18 de maio de 2008

Lupino

Todo homem é uno quanto ao corpo, mas não quanto à alma.*

Ele fugia sem saber direito o motivo. Era como um instinto puro. Mesmo quando prometia fazer o contrário já era tarde demais. Desviara o olhar de um conhecido ou se escondia entre um livro.

Evitava as pessoas. Não acreditava que podia ser alguém agradável. Era sempre meio ríspido e quando seu instinto falhava, acabava sendo constrangedor para todos. Gostava de pensar que estava até fazendo uma boa ação, poupando as pessoas de sua companhia.

A solidão era uma opção, não era timidez como alguns gostavam de chamar. Algumas pessoas tentavam incluí-lo em conversas forçadas e em reuniões, como quem faz um ato de caridade ao convidar o esquisito para seu meio. Ele nunca aceitava esses convites e os poucos que aceitou levou consigo um silêncio que incomodava quem estivesse ao redor.

A mãe disse-lhe um dia que ele era como um lobo fora da matilha. Arredio, recluso, que por vez ou outra até podia ser bonito, mas ninguém nunca confiaria nele, a solidão era sinal do temperamento difícil, típico daqueles que morreriam sozinho.

Quando se dispunha a interagir tornava-se o lobo que sua mãe previra. Na tentativa de ajudar, mostrava os dentes e feria as pessoas, então percebeu que só era possível coexistir quando ele se calava e assim fez.

Nunca entendeu porque as pessoas insistiam em se multiplicar, com a desculpa de ter para quem deixar um legado. Acreditava que ter um filho era uma tentativa desesperada de ser criador, talvez um deus, mas que deus faria um ser com tantas anomalias e até capaz de deixar existir um homem com essência de lobo? Não existia o divino ali.

Para que uma matilha quando se pode ser sozinho? Para que uma sociedade quando você pode ser seu mundo? Foi meio homem, meio lobo. Morreu inteiro e sozinho e não deixou legado de sua existência lupina.


* Hermann Hesse, O lobo da Estepe.

2 comentários:

Toad - Matheus H. disse...

Me senti homossexual agora...

Toad - Matheus H. disse...

Explicando... ele não é homem...O personagem é uma mulher. Eu vejo assim. Porque eu conheço a personagem.