- Corram! - Ouviu-se gritar de algum lugar do tabuleiro até que a voz fosse tomada por motores de aviões e metralhadoras. BOOM! Pronto, a explosão se fez destruindo um exército inteiro. Assim, fácil fácil assim. - Troca dez pequenos por um soldado grande aí vai. - Não deu tempo. Nem sempre é justo - três contra um em Vladvostok.
Tudo gira em torno de sorte e muita estratégia. Os campos tomados por Morte definem e peneiram os mais fortes. As cores se desfazem à medida que o cansaço impera com o tempo, a ferida dessa batalha chama sono, que falha a atenção e cava a cova pra enterrar-se nas cobertas. O jogo da Guerra não tem dó, e os dedos dos jogadores impiedosos estão carregados com os Dados prontos para atirar. - FOGO!
Exilados vão sem Destino de um lado para o outro com algumas cartas na mão, mas o objetivo se torna obsoleto. Alguns pedaços do mundo que nada mais significam quando se está desesperado e tomado pela esterilidade. Os Zumbis rodeiam a mesa apenas pelo instinto de sobrevivência, ninguém quer ser o primeiro! Mantém os poucos soldados e um copo de Coca-Cola quente e tão no final quanto suas alternativas esperando alguém vacilar e, quem sabe, o jogo não vira? Há fé, e por que não? Já que os Dados são Deuses de mão em mão, e o copo pode voltar a se encher.
Conquistar territórios. É disso que se trata o objetivo. Dados que definem quem vai, quem fica. Ninguém morre em peças de plástico, aqui a Morte não dói no coração de ninguém nem deixa rastros. Mas todos deitam fracassados montando uma pilha inodora enquanto o vencedor escala o topo.
Se a diversão chama "Guerra", divirtam-se.
domingo, 5 de outubro de 2008
Guerra de Plástico
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domingo, 21 de setembro de 2008
O Buraco
Arranhei a parede em busca de um aborto
Com os dedos em carne e sangue,
Me abracei na procura de conforto
Do lado de cá é tudo muito abandonado
E fico preso sempre aqui do outro lado
Minha sede pede água e eu apelo à trégua
Nada além de mágoa na ausência que me cega
O que eu quero não tem nome
Não tem definição
Estou preso em mim mesmo
Nessa minha obsessão
O portal da liberdade,
Ou o início da prisão
Mofo junto com as paredes
Aguardando uma decisão
O buraco que liberta
Que esconde e alimenta
O buraco é a meta
Minha vitória lenta
Sem objetivo
Não sei se já morri
Ou se ainda estou vivo
O que acontece agora?
Me diz o que tem de errado
Me diz o que tem de errado em mim
Aqui dentro do lado de fora
Não sei se é o começo
Ou se já cheguei ao fim
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domingo, 7 de setembro de 2008
Nunca Mais

Sempre acreditei que podia voar. Sonhava achando ser verdade que tocava as estrelas, que habitava planetas... que minha nave espacial era especial. Minha vida inteira num pouso de mentira. Minha fé é brincadeira.
Aonde ninguém foi jamais, eu venho em paz, sou um patrulheiro espacial. Vôo feito pássaro, plano feito avião, voar é só querer, basta crer e voar. Mas lá embaixo eu vi desaparecer.
Nunca mais sentir o vento frio contra o capacete, explorar as galáxias, ser leve novamente. É pesada a gravidade, sempre foi. Sempre foi verdade. Abrir as asas não faz mais sentido. Aprendi que voar eu não vou nunca mais, só cair, sempre cair... com estilo.
"Éééééé
Voar, eu não vou
Nunca mais"
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domingo, 24 de agosto de 2008
Quem Cala Consente
Acordei agitado. Sonhei com sexo, na verdade, uma orgia. Eu não me sentia a vontade àquela manhã, não me sinto muito bem com pessoas suando e amontoadas. Liguei a TV, mais sexo. Meus hormônios me diziam o que fazer, e eu nunca nego a vontade do corpo. No caminho, tudo o que eu via era sexo, sexo, sexo. Sou uma pessoa normal, como todas as outras, sei das minhas vontades e necessidades. Mas não me masturbo, acho nojento. Prefiro me guardar para minha amada, a única que já transei sem ter asco daqueles líquidos e cheiros.
Trabalho no mesmo hospital onde ela estava. Entrei devagarinho como sempre, tirei suas cobertas e lá estava, à minha espera. Linda, branca, frágil como vidro. E tão sozinha, tão carente... Nunca me traiu, eu também sempre me mantive fiel. Dei um tapão no lado direito de seu rosto: "ACORDA amor, pronta pra mais um encontro?"
Ela sempre me espera nua, nunca nega fogo e quase não fala - perfeita! Faço tudo como um ritual, passo gel entre suas pernas, enfio dois dedos de uma só vez e ela adora, entra fácil fácil. Bato meu pau já duro e carregado em sua boquinha maravilhosa e ressecada e, logo em seguida, enfio em sua buceta. É a melhor sensação do mundo, enfio bem devagarinho, pra ela se acostumar com a sensação. Nunca nos olhamos nos olhos.
A deito de bruços, lambo seu cu, bato em sua bunda até que fique bem vermelha, então enfio todo meu pau e a como com força, com um ódio sem culpa. Puxo seus cabelos loiros como se fosse arrancá-los, mordo suas orelhas e sua nuca, aperto seus peitos como se quisesse tocar seu coração - Bata, bata mais forte. Trocamos juras de amor: "Eu te amo sua filha-da-puta, e nunca vou te abandonar!". Então ela me tem dentro dela até o próximo encontro.
Quando acabamos, cantando baixinho nossa música preferida penteio seus cabelos, retoco seu batom, limpo minhas lágrimas, dou um beijo em sua testa e a cubro de volta. "Foi bom pra você meu amor?" Ela nunca responde, talvez no próximo encontro...
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domingo, 10 de agosto de 2008
ps.:
ps.: Era pra ser uma carta de amor.
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domingo, 27 de julho de 2008
Tudo é muito bonito, mas sei lá
Estava diferente, percebendo cores e sorrisos. Se via no espelho d'água tão mais perceptível. Tudo parecia fazer sentido. Serenamente, deitou-se para ver o crepúsculo do sol e descobriu o quanto viver vale a pena. Não se sentia só naquele ocaso, e se sentia. Mais próximo de Deus.
Como as nuvens, seguiu seus passos lentamente de volta, sem mais zigue-zaguear em confusões. Tinha encontrado finalmente a saída do labirinto, a última peça do quebra-cabeça que havia perdido em suas desordens banzeiras.
Ouvindo canções lineares, desfez todo o caminho se jogando na areia, agitou o mar e ofendeu as estrelas ainda novas. Rasgou, mastigou e engoliu a peça que faltava, fechou a porta do labirinto se trancando do lado de dentro e apagou as luzes. Já não era tão belo seu sorriso, mas era muito mais sincero. Tudo é muito bonito, mas sei lá¹.
¹. Título de uma música do M.Takara
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domingo, 13 de julho de 2008
Só.
Estou num túnel que bifurca em vários outros túneis destinados à escuridão. O caminho a percorrer não importa, o destino que desenhar me será cruel. Eu não sei o que está errado com meu coração. Quando descobrir, ele já terá partido. Já terei partido. O escuro é sólido e tem um gosto amargo, invade minha boca, entra pelos meus ouvidos e dentro dos meus olhos - que aberto ou fechados, já não são mais necessários.
Vozes que não consigo identificar de onde vêm e o que dizem ecoam em toda ausência. Ouço algumas teclas de piano, fazendo uma canção lenta e dolorida, reconhecível. Mas eu sei que é só coisa da minha cabeça. Toda esperança evapora de meus poros, me deixando deitado em minha cama com meus espíritos fazendo ronda. E morro só.
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domingo, 29 de junho de 2008
Long Nights

Eu me esforço ao máximo para brincar e sorrir quando está por perto, porque meu sorriso amassado e torto fica natural, fácil e descontrolado, nos aproximando com as piadas toscas e diversas. E eu te descubro mais em conversas sérias de palavras difíceis e de extrema importância.
Tudo que eu não consegui dizer porque você não atendeu o telefone, e nem chances de caixa postal eu tive. Tudo que eu não consegui por vergonha e um monte de outras coisas, te digo aqui, porque aqui é o meu lugar e com palavras escritas eu posso ser.
As noites são longas às vezes, eu sei, você sabe. Mas é rindo que ela ri de volta pra você. E com você e os outros, estou desamassando meu sorriso e descobrindo chaves para portas fechadas.
Quero acreditar mais nisso que te digo, que você tanto insiste em dizer. Quero não precisar que você atenda o telefone para te dizer que estou com você, porque se realmente estivesse, te daria um abraço e te diria sem precisar ligar.
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domingo, 15 de junho de 2008
Cinzas
Precisava de um inimigo para completar minha vida. Um diferente, cansei de me enfrentar e perder sempre. É isso. Genial! Como não havia pensado nisso antes? Como não havia pensado em preencher essa lacuna odiosa e vazia com inimizades? Sempre quis ser querido, mas isso contradiz com minha natureza solitária e mesquinha. Agora tudo se encaixa em perfeito sentido. Cansei de ser meu próprio inimigo.
Ele é menor e aparentemente mais fraco. O escolhi porque sei que vou perder, mas todos nós perdemos. Sempre perdemos. O aponto para mim e procuro em vão o gatilho. Essa arma não precisa de balas. !FOGO!
Agora ele vai ser meu melhor amigo. Eu ganho todas as batalhas, mas no fim, todos nós sabemos que a guerra é dele. Ele é meu melhor amigo porque sabe a hora de ir embora, e se vai numa fumaça misteriosa, deixando sempre um pouco de si em mim. Ele me salva de mim mesmo.
Me mata aos poucos, mas quem não mata?
Agrada só para não ser sozinho. É tão triste, meu melhor inimigo...
Ele só antecipa meu anseio. No final, somos só cinzas.

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domingo, 1 de junho de 2008
... Paz na minha solidão

Pensar é obsoleto
Estrelas-cadentes invadem os céus
No fim todos procuram salvação
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domingo, 18 de maio de 2008
The Autumn Lips
Veio por acaso, vestida de arco-íris, flutuando poesias. Meu amor na ponta da caneta, a moça das unhas de sangue. Um brinde ao ctrl+z. Resumidamente é isso. Me abrace, não me solta e me deixa morrer. Quando eu precisar... Deixa eu morrer quando eu precisar...
O cansaço falha as letras. Falha todas as canetas. Empresta o sangue de suas unhas?, é rapidinho... Preciso apenas escrever um ou dois versinhos. Posso até te beijar com meus lábios de outono, boca ressecada. Posso até me envenenar, beijar cada veia machucada. Prometo não irá se arrepender. O velho que mata, a moça que deixa morrer...
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domingo, 4 de maio de 2008
The Taste of Life
Eu olhava marcas novas no tecido cada vez mais velho. Vinte e uma marcas feitas sem precisão na única pretensão de excomungar o mal. Tudo começou no metrô, quando senti minha alma saltar de meu corpo, pegar um trem e ir para o outro lado (a propósito, ela deve ter levado minha carne também, porque eu me tornei tão inóspito e cinzento quanto São Paulo - mas não tão grande - e ninguém mais me percebe.)
Corro a minha procura, me encontro mas não me olho nos olhos. Sigo distante. Sigo pegadas nas paredes e teto. A gravidade é ignorada, ela pouco importa. Erroneamente deparo com o espectro de alguém prestes a morrer, como um espelho, e o gosto de doppelgänger¹ me arrepia os pêlos. A matéria é ignorada. Ela e eu. Eu, eu.
Todos temos nossa metade má. Eu me perdi em qual lado fica a minha, e machuco uma metade na esperança de afastar o mal. Eu não sei se a força que corta é a que exila ou a que produz a maldade. Se eu pudesse matar o mundo inteiro, eu faria. Mas estou ocupado demais tentando acabar comigo mesmo. Eu sangro o gosto da vida. Eu bebo e me engasgo.
Eu não sei em quem atirar. Eu só tenho uma bala, é hora de escolher. Em um dos lados eu acerto. Enfim, viverei uma metade em paz.
¹. Entidade do folclore alemão que se assemelha a um fantasma, mas trata-se de um espectro que é o duplo de alguma pessoa ainda viva. Diz-se que se alguém encontrar seu próprio doppelgänger, morrerá em breve. O termo também é usado como sinônimo de "sósia", geralmente com alguma conotação maligna.
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segunda-feira, 21 de abril de 2008
Sketch
Eu não preciso escolher um lado, tanto faz o que transpassa, já passou. Já misturou. O espelho me reflete ao contrário e ri de mim sempre feliz. Duplica minha dor e meus desejos. Vai embora sem avisar e volta me assustando com um rosto que desconheço. Foi o que me sobrou. O negativo do meu próprio reflexo.
Invenções de um mundo de ilusão. Finjo amor, finjo piadas. Finjo estar tudo bem com uma máscara estampada. Eu queria deitar, olhar tudo como se tudo fosse estar ali quando eu despertar. Ali, bem do jeito que eu deixei. Mas a alquimia natural do mundo não torna isso possível. Quando eu acordar desse pesadelo, tudo vai ser mais bonito.
Para os que ficarem para trás, não me sigam, cada um tem o seu caminho e seus motivos. Para quem chorar, seque-se em minhas poesias, molhe minha dor enquanto enxugo a sua. Uns rabiscos pra dizer que meu amor está cada vez mais perto. E eu amo cada vez mais, porque é a única certeza. Amar é sempre destrutível, mas nem sempre ter razão é bom.
"My love can go where you don't know
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segunda-feira, 7 de abril de 2008
Quem é Quem (e vice-e-versa)
Sobem pelo meu corpo. Aos poucos me formiga todo. Literalmente. Caminham lentamente, ordenadamente de encontro. Pelo corpo todo. Eu quero ser a rainha. Serei a mais bela de todas.
Vieram adiante sem eu nada poder fazer. Sem o devido respeito ocuparam todo o espaço. Me deram vestido, me coroaram. Me fizeram acreditar. Antes que pudesse ouvir chamar, tomaram meus ouvidos. Antes que pudesse gritar, ocuparam minha boca. Desceram ao meu estômago e comeram as borboletas. Me iludiram ser nobreza.
Seguraram minhas mãos, me impediram de atitudes. Comeram meus cabelos e todas minhas personalidades. Entraram em minhas veias, apodreceram meu coração. Meu pobre... - Mas eu sou a rainha - tentando me explicar, tentando me acreditar.
Formigas. São todos formigas. Pena eu não ter uma lupa gigante, pena o sol não estar escaldante. A minha vantagem em relação às formigas é que elas vivem em silêncio, e eu não as ouço chorar. A vantagem é eu ser maior que elas. - Eu sou a rainha - gritava, - EU SOU A RAINHA! - E pisava, e pisava, e pisava...
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segunda-feira, 24 de março de 2008
Too Late I'm Dead
Eu vegeto aqui. Meu corpo - pêlo e cicatriz - não me diz mais nada. Os ossos estão cada vez mais pesados. Tanto faz se eu choro ou se dou risada. Meu reflexo no espelho me ignora. Toda vez que tento conversar, ele vai embora. E eu tento ir ao seu encontro, e com lâminas eu me deparo. Pronto, mais sangue, mais e não paro. Mais morte eu desejo, mais isso eu almejo.
A repulsa. Outros na minha cabeça gritam o que fazer. Eu não lhe dou mais ouvidos, eles pararam de dizer. Minha imagem deu-me as costas e partiu. Como o espelho, meu coração. Ruínas e manchas fazem de mim um homem frio. É esperança, É PRA EU SENTIR QUE ESTOU VIVO, OUVIU?! E a culpa disso tudo é tua. É minha, eu sei meu rei, a culpa é toda minha.
Me tornei tão inóspito que já não percebem minha presença. Ninguém vê se eu chego ou me vou. Eu construí meus castigos e minha própria sentença. Minha voz, de tanto desuso atrofiou. Nós criamos os deuses e nossas doenças. Meu rosto envergonhado sempre diz: O que você (não) se tornou?
Ainda mais, que se fosse eu faria melhor. E repete insensatemente como sou imperceptível. Minha dor não é som, meu sangue não é cor. Como viver pode ser tão horrível! e alguém sempre me diz sem parar: Quando morrer, você pode avisar?
Tarde demais.
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domingo, 9 de março de 2008
Where Do You Go To (My Lovely)
O telefone toca. Acordo. Ele toca diferente. Eu acordei diferente, e posso dizer exatamente quem é do outro lado da linha. Mesmo que tenhamos ficado muito tempo sem nos falar. Sua voz ainda soa claramente limpa e doce em meus ouvidos.
- Alô?!
Neuilly Park Hotel, 23, rue Madeleine Michelis. É para onde ela está indo. Exatamente onde eu estou. Paris nunca pareceu tão bela. Tão bela e injusta.
Termino de escrever uma baboseira ou outra na máquina de escrever, coloco uma música e vou tomar banho. Não sabia quanto tempo fazia que não tomava um banho. Minha barba também não está apresentável. Já não sabia quanto tempo fazia que eu não saia na janela. O cheiro da França nunca tinha sido tão suave.
A campainhia avisa que só a porta nos separa.
- Feliz Natal - ela esparrama as palavras que dividem atenção com os gestos de suas mãos. E o mesmo sorriso de antes.
- Você fez luzes no cabelo.
- Estou aqui. Gostou do presente? - Meu presente... Meu passado. Gostava do meu presente sem ela. Mas dela eu gosto muito mais.
- Não vai me convidar para entrar? - Ela já estava entrando, e sabia que não precisava de convite algum. Na verdade, ela nunca havia saído.
Um abraço. Nós ainda encaixamos perfeitamente. É como se tocasse sua pele baunilha sob suas roupas. Sentia seu coração inseguro como se sussurrasse segredos com o meu, como se pedisse abrigo em mim. Aqueles segundo pareciam eternos. E se pudesse, diria sim.
Cigarros. Nunca mais havia fumado desde que ela foi embora. E lá estávamos.
- Que flores lindas!
- É. É mostarda. Você sempre duvidou delas.
- São lindas.
- Você é linda.
Nos beijamos exilando a tensão que nos cercava. Ela passava segurança, mas suas mãos suavam. Suas mãos suavam pelo meu corpo enquanto eu a despia. Uma marca de cigarro que antes não tinha. Um olhar triste que eu não conhecia. Ela respirava em cima de mim.
- Você não deveria ter me encontrado.
- Você não deveria ter vindo para um lugar tão óbvio.
- Talvez no fundo eu quisesse...
- Pensei que fosse ficar em Champs-Élysées¹. Combina com você.
- Pensei em ficar lá. Mas combina com você.
- Sabia que iria te encontrar por aqui.
- Viva la résistance!
Uma longa pausa. Um longo beijo. Ela diz o óbvio:
- Eu vou embora.
- Pra onde?
- Pra longe.
- Eu acho que também vou. Alemanha ou Amsterdã, ainda não sei... Fiquei tempo demais aqui.
- A Alemanha engorda. E vai te partir o coração.
- Mais do que você eu acho que não.
Ela levanta. Pego três flores de mostarda e coloco em seus cabelos. Ela fica perfeitamente bela vestida só com flores. Como Paris. Eu não queria deixar a França, e não queria deixá-la. Mas que escolhas eu tenho? Ela sabe porquê estou aqui.
- Quer ver a visão que eu tenho de Paris? - Ela concorda com a cabeça. Pego em sua mão e caminho em direção à sacada. Então, no meio do caminho, coloco-a em frente a um espelho e a abraço por trás. Dançamos a noite inteira.
A Deusa e o poeta.
¹. Champs-Élysées é uma larga avenida em Paris. É também uma das ruas mais famosas no mundo. O nome refere-se aos Campos Elísios, que na mitologia grega significa o Reino dos Mortos, onde só entrava as almas dos heróis, santos sacerdotes, poetas e deuses.
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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
6-5
Não havia destino traçado naquela noite. Chuvosa, se fazia inquieta e confortante ao mesmo tempo, por estarmos todos juntos. Cinco perdidos em seis caminhos diferentes. Uma noite de encontros e desencontros como aquela não acontece usualmente (mas há a possibilidade do acaso para nossa felicidade e salvação). A cada instante, um novo instante. Valorizou-se ao saber que estávamos juntos e que seus trovões furiosos não nos atingiriam. Apenas nós a nós mesmos.
Por vezes, encontrávamos sozinhos sendo questionados com uma curiosidade sádica pelo conhecimento do próximo, e nos perdíamos entre olhares, que assistiam a qualquer coisa que não respirasse (e julgasse) ali. É muito difícil encarar as verdades olhando em seus olhos. É muito difícil ser você mesmo.
Abertos a julgamentos e opiniões, fomos. Cada um em cada passo, em cada número. O lance de dados que definiria toda sua vida. Tudo ali, no momento em que pára. E todos paravam junto ao mestre. Foram momentos de reflexão e coragem. Às vezes é preciso dizer os pensamentos em voz alta pra que possamos nos ouvir com mais clareza. E as vezes o medo corava a superfície e nos engasgava, deixando desejar à curiosidade insaciável.
A berlinda de perguntas de interesses pessoais. Família, amigos, sexo, passado/futuro, pensamentos, e uma nova chance para um novo caminho - um luxo concedido pela falta de criatividade, diria, mas que ninguém realmente desejava. Um pouco mais de cada um guardado ali naquele dado. Cada face, um lado, e cada lado, uma chance.
Conhecer um pouco mais de quem se gosta, conhecer um pouco mais da gente mesmo.
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segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
.final ( )
Ponto final.
Começo no fim de mais uma decepção. Mais uma glória rasgada, e mais lágrimas desperdiçadas. O último. Sete significa sorte para alguns... Hahaha, até esqueci aonde ia chegar. Mas é o último. Dramático e perdoável como todos foram, o último.
O natal (assim com letras miúdas mesmo) passou quase despercebido. Teve que pendurar um colar de luzes e um sino dourado como pingente no pescoço do papai noel (assim com letras miúdas mesmo), tunar seu trenó e colocar mais 200rp - renas de potência; e o nariz do Rudolf agora é de xenon. E mesmo assim, eu não o vi.
O espírito de natal estava enrolado num carteado com o diabo, se atrasou todo e esqueceu de alguns lugares. E assim ele embolou com todo o fim de ano. Todos os planos, todas alegrias... As férias viraram castigo. Meu pai (que não é noel) desapareceu. Colocou tudo em seu saco e desapareceu. Levou o sorriso de minha mãe, as lembranças, o amor, e os DVDs (que até agora eu não me conformo). Ora, por que os DVDs? Aposto que ele também é o culpado por estes dias de sol escaldante.
Estávamos infelizes. Mas infelizes como sempre. Agora a tristeza é outra. Não é só minha, e isso é insuportável. Somos todos corpos escorregadios nos esquivando de abraços e carinhos. A atenção vem nas piores formas. Gritos e choros e velas derretidas. Nem a fé é sólida. E cá estamos esperando e tentando um ano novo (assim com letras miúdas mesmo) melhor, um ano novo mais digno e decente. Um ano novo fora daqui.
Não sei o motivo de eu escrever isso agora, eu tinha até outra coisa em mente. Mas essas semanas, o assunto não foi outro. Na televisão só se fala disso, nos jornais, nos amigos e parentes, nos filmes... É só isso.
Eu sinto raiva de todo ano que acaba porque ele nunca acaba bem. E sinto raiva porque se eu o aproveitei bastante, não deveria ter acabado.
Não sei como terminar esse texto, assim como não sei como terminar este ano; assim como não sei como terminar nada na minha vida. Mas ele sabe. E terminou.
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
A Clace Palled Home
Ela diz exatamente tudo que eu sinto. Mas ela não sabe, e está sentindo agora o que sempre viu em mim e ignorou, fingiu não ser nada. "Não é nada!". Assim, simples, cinicamente acreditando nela mesma. Tem o dobro da minha idade, talvez mais. Nossa diferença é que ela não viveu, enquanto eu luto para não sobreviver. E como pode se abrir tão facilmente daquela maneira? Quase sinto inveja se já não sentisse outras milhões de coisas por ela. Meu pecado é desejar que fosse muda toda vez que grita. Então choraria em cima dela. Queria que ela fosse embora.
Minhas dificuldades aumentaram porque tentam tampar minha visão. Meus olhos que nunca olham o que está, porque a cabeça quer que (a)voe, e o coração. Seu "lar" na verdade nunca existiu, e se existiu, nunca fiz parte dele. Como eu posso chorar por alguém que nunca amei? E ninguém ouve meus pedidos de socorro abafados pelos seus.
...socorro...
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segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
Venus in Furs
Meus olhos fecharam-se e minhas pálpebras já não mais me obedeciam. Caminhava cego pelas ruas, porém despreocupado. Era um caminho de todo dia. Só via o que era necessário. Sendo assim, os olhos tornaram-se obsoletos naquela terra. Não havia mais função alguma para se usar a visão na rotina. Quanto descaso.
Sentia a brisa daquela noite. Um sopro delicado acariciava meu rosto. Esquecia meus tênis e sentia o que devia sentir. Andava cada vez mais rápido e arrancava minhas roupas. Elas nos fazem escravos. Aqueles que ainda tinham olhos, me olhavam. Suas vozes eram abafadas porque nada interessante diziam. Como sempre não dizem. Meus ouvidos não eram necessários para mais que aquela música em meus ouvidos. O chão cada vez mais distante se despedia de mim contente por aliviá-lo.
"Abra os olhos" ecoava como se fosse de dentro de mim. Passeava pelo céu gelado e me enrolava nas nuvens para suprir o frio. Aqui me sentia extremamente bem, nesse vazio. Sentia o vento cortar-me os póros fazendo-me sorrir. Eu queria mais. Queria o calor de uma estrela. E nada me impedia.
Era uma longa viagem, conforme atravessava camadas de tempo e espaço, eu ficava mais velho. Cada vez mais. E mais fraco. Aquilo me consumia, mas eu só me permitiria morrer no calor do colo de Afrodite, na luz das estrelas. E lá pereci. Quanto mais me aproximava, mais escura elas ficavam. Quanto mais perto chegava, mais frio ficava. Meus pequenos sóis, minhas doces ilusões. Rochas retraídas e mortas como eu. Cansado, comecei a esfarelar e enrijecer. Já não conseguia me mexer. Aquela luz eram os olhos da paixão. Seu calor, era desejo. E pude entender o porquê de todas aquelas estrelas no céu.
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