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domingo, 23 de novembro de 2008

C'mom Baby Say Bang Bang

Queria um revolver que cantasse a cada disparo. Que resolvesse alguma coisa a cada furo. A cada puxada de gatilho uma inspiração. A cada coisa que tombasse, uma nova se erguesse.

Bonito e com um tambor barulhento, quase carnavalesco, que tocasse uma melodia nova cada vez que fosse acionado. Que girasse com suavidade, batesse com força e explodisse como fogos de artifícios.

Em cada bala uma doçura capaz de curar um corpo cansado. De dar um descanso aos que merecem. Que cuspisse confeitos capazes de ferir pessoas amargas, sem gosto e com vida.

Um tiro, um sonho, saraivada de balas, doces ou azedas. Qualquer coisa que tire o gosto ruim o que dê um gosto melhor para uma vida sem sabor.

É esse o revólver que eu quero, por favor, posso ter um deste?

domingo, 5 de outubro de 2008

Por um bom jogo

Várias pessoas que passaram pela minha vida são como as cartas de um baralho, mesmo agrupadas não valem muita coisa. No pife é preciso três trincas para ganhar o jogo, mas muitas vezes ganhar não significa que foi uma bela jogada.

Muitas pessoas que conheci foram descartadas, joguei no monte porque não tinham utilidade, outras eu troquei, só pra fingir novidade, mas não adiantou. Algumas das cartas que tenho só permanecem na mão porque não tive chance de descartar por algo melhor.

Entendam que essa comparação pode parecer fria e arrogante da minha parte, mas sou sincera e não sei ser demagoga, sinto dessa forma. No pife é obrigatório ter nove cartas, na vida não tem número estipulado, mas é de bom senso que não fique sozinho por completo. Regras da vida, regras do jogo.

Fazer um trio de cartas iguais é fácil, difícil mesmo é fazer um jogo na seqüência e ainda bater
com as dez. Isso é bonito e vale à pena. Eu estou com um bom jogo atualmente. Tenho cartas na seqüência, que se completam e quando olho para elas eu penso "Porra, se tudo der certo eu ganho esse jogo", mas na verdade eu não quero isso, se eu ganhar, a jogada termina e começa uma nova e com isso mais pessoas, mais naipes sem combinação, mais cartas incompletas.

Eu tenho cartas
inúteis, mas compensa ficar com elas do que perder a minha seqüência, porque lembra da obrigatoriedade das nove? Então eu prefiro conviver com os descartáveis a ver as minhas especiais no monte, porque a força do jogo está na união delas e não na individualidade.

A amizade, assim como o pife, é plural. Sem o conjunto são apenas um grande baralho de pessoas descartadas.

domingo, 21 de setembro de 2008

Growing Inside

Depois de algum esforço conseguiu abrir os olhos que pareciam colados. Era tudo escuro. O ar estava morno e meio sufocante, só conseguia sentir sua respiração que voltava assim que ele expirava. Alguma coisa envolvia todo seu corpo, como se fosse uma massa que delimitava seus movimentos.

Talvez estivesse sonhando, mas não sabia o contrário de um sonho. Não lembrava de sua vida. Não sabia como era chamado pelos... outros? Será que ele era parte de uma composição de pessoas? Um grupo? Porque estava ali? O que significava aquilo? Ele estava ofegante e o ar ficou mais quente. Sentiu algo descendo pela testa. Estava suando e tentava recordar seu nome, mas não conseguia.

Percebeu que podia mexer os dedos e conforme se movimentava ouviu algo romper, um barulho fino, delicado e de repente sentiu farelos e pequenos pedaços. Um cheiro artificial, que como tudo naquele momento, ele não sabia o que era, parecia areia. Continuou movendo os dedos, pois era só o que conseguia fazer. Depois de um tempo já podia mexer ambas as mãos e tinha um espaço considerável. Tateou o que pôde e tudo ao seu redor era duro e áspero.

Agora já conseguia bater com os punhos fechados, não sabia por que, mas precisava se desvencilhar daquela coisa que o abraçava e o segurava ali. Talvez se lembrasse de quem era ou talvez soubesse que não era ninguém. De alguma forma saberia algo. Continuou.

Ouviu um ruído mais forte, algo estava rachando. Continuou batendo os punhos. O barulho ficou mais intenso, alguma coisa estava sendo destruída. Uma luz mínima amarelada. Socos. Já tinha espaço para mover as pernas. Joelhadas. Chutes. Chutes. Socos. Raiva. Suor. Raiva. Raiva. Raiva. Caiu.

Nasceu. Os olhos tentavam ver além do bege morto de um quarto. A cadeira de criança já não servia e o armário não abria. Estava pelado, mas não tinha frio, na verdade não tinha nada, só as lembranças que estavam surgindo, mas não confortavam nem um pouco.

Lembrou da escolha que mudou sua vida. A rejeição sofrida na infância resultara no recolhimento. Tinha se trancado no quarto. Preferiu ficar entre as paredes e ser criado novamente, até querer nascer de novo. Ser parido por elas. Duras, frias, caladas, mas presentes. Não mais um rejeitado, não mais um qualquer, mas sim um filho das quatro paredes. Enfim alguém.

...schopny růst uvnitř...

domingo, 7 de setembro de 2008

No ar

- Vamos comigo!
- Ah não sei, o homem não foi feito para voar.
Ele a olhou pedindo que confiasse e ela foi.



Primeiro foi o medo e a vontade de desistir. Pensou nas pessoas que morreram nessas situações e depois pensou nas que morreram de diversas outras formas. De repente morrer não era mais problema. Morreria um dia de qualquer forma mesmo.

Depois veio a excitação e a vontade que fosse logo porque tinha medo de amarelar e desistir. Ela teve medo e quis recuar, sorria nervosamente, mas não desistiu. Aquelas asas mecânicas a assustavam de certa forma, então ela buscou as mãos dele e conseguiu permanecer ali.

Tudo pronto. Respirou fundo e subiu os dois degraus. Nessa altura se sentia acuada e segurava no que podia para imaginar que estava presa a algo. Do banco da frente ele virou, a olhou e sorriu. Foi aquilo que a manteve ali. Era a segurança que precisava. Ele, do seu lado.

O avião correu pela pista e subiu. Respirou fundo e já não se segurava mais em nada. Estava solta. Olhava ao redor como se fosse cega antes daquilo. Nunca tinha visto a cidade tão pequena. Agora ela o chamava para apontar uma nuvem, um prédio, uma montanha. Não conseguia deixar de sorrir.

Quando voltou para o chão achou que aquela sensação boa iria logo embora, mas não foi. O que sentia estava atrelado à superação do medo e como o amor que sentia por ele ajudou nisso.

Talvez o homem não seja feito para voar literalmente, deve por isso que há aviões e pessoas capazes de fazer as outras saírem do chão, seja em um bimotor ou com um olhar, como ele, que fez as duas coisas.
*Foto dele.

domingo, 24 de agosto de 2008

Essencial


Não achava possível fazer amor. Se fosse verdade as pessoas não sofreriam pela ausência desse sentimento, simplesmente o fariam. Só mais uma mentira criada para pessoas inseguras lidarem com o sexo, porque soa melhor do que trepar como animais que, no fundo, é o que todo mundo faz.

Para os médicos ela era sexualmente ativa e para os puritanos, uma puta. Só não era uma Geni porque não dava para qualquer um. Sabia o que queria e quem era capaz de oferecer isso. Sexo era algo simples, comum a todos. Valia tudo por prazer. Entre quatro paredes ou não. Acompanhada ou sozinha.

Não gostava de sexo morno e mudo. Chegou a experimentar o estilo de transa contida de muitos casados, dos gemidos disfarçados de ser uma família na cama, mas o único efeito foi o tédio. Tinha que ser agressivo, falado e com força. Era isso o que determinava a intensidade do que viria.

Gostava de ser dominada e ficar que quatro, como todos os animais na busca do prazer primitivo. Se excitava em pensar que naquele momento era igual a uma cadela, uma vaca, uma gata ou qualquer outra fêmea que fosse. Era um reencontro com seus instintos. Um retorno à natureza. Gozar era fazer parte do mundo novamente.

Imagem: Vagina Jewel, de Lillit Keogh

domingo, 10 de agosto de 2008

You hav[e]mail


Boletos, propagandas, cobranças, promoções imperdíveis e inclusão do nome nos órgãos de proteção ao crédito, enfim, essas coisas. Nunca tem nada pessoal. Os amigos não escrevem, nem mandam cartões.

As mãos atrofiadas já não sabem mais o que traçar com uma caneta, e os dedos só sabem bater e seguir as representações do que seriam letras. Não mando e nem recebo mais cartas. Muitos não saberão como é minha grafia e nem como puxo a perna da letra S. Muitos nem sabem que o S tem perna, né?

Eu ainda sei usar um lápis e um papel, mas tenho medo de te mandar uma carta e você achar que seja um novo tipo de vírus e, sem pensar duas vezes, jogue na lixeira azul e recicle meus sentimentos até que eu fique como você, sem essência.

Na verdade só quero dizer adeus para a realidade e olá a virtualidade, porque as palavras escritas com uma Bic azul foram embora junto com quem eu era. Agora sou um nome arroba em um domínio que não me pertence.

domingo, 27 de julho de 2008

Sour Times

Primeiro ela tirou o esmalte vermelho das unhas e depois resolveu arrancar as próprias unhas. Olhava no relógio, mas o tempo insistia em ser clichê e não passar. Aquele telefonema avisando que ele passaria por lá para conversar era incomum demais, afinal o que era tão importante que não podia esperar até o final de semana?

Tinha algo estranho entre eles, algo que precisava ser consertado. Não era nada grave, porque ela tinha certeza que o amor que sentiam era maior que qualquer coisa. Cortou a unha do dedo mindinho esquerdo muito rente e percebeu que estava sangrando. Foi no banheiro lavar as mãos e a campainha tocou. Era ele.

Correu até a garagem e abriu o portão. Ela o beijou, mas não o sentiu. Entraram e sentaram no sofá.

- E aí? Está tudo bem com você? Estou curiosa – falou de forma descontraída tentando não demonstrar o medo que estava sentindo.

- Eu sempre fui sincero e direto com você. Prometemos não mentir ou enganar um ao outro, você se lembra desse nosso acordo, não lembra?

- Nossa claro que lembro. O que houve?

- Não posso mais continuar com você.

- Se você fez algo errado eu te perdôo, porque te amo demais e não vivo sem você – disse desesperada.

- Eu jamais ficaria com alguém que não amo, você sabe disso – ele disse com um olhar sério.

- O meu amor é o suficiente para nós dois. Eu posso te fazer um homem feliz – disse com um sorriso torto, resultado da mistura comum entre o amor e a dor.

-Quando eu digo "eu te amo" é para sempre - ela disse sentada no sofá.

-Quando eu disse "eu te amo" foi passado – ele disse indo embora, deixando a sala vazia.

Ela não o amava só com o coração, mas, também com o corpo, com a alma, com toda sua essência e aquela sinceridade tão brutal estraçalhou tudo o que ela era. Pensou que talvez a verdade fosse só uma forma absurda de ser infeliz e naquele momento queria a mentira que era o amor dele. Queria a mentira que precisava para ser feliz. O amor que só ela amou.

*Título de uma música do Portishead

domingo, 13 de julho de 2008

Um parque de diversões da cabeça*

Quando abriu os olhos percebeu que estava perdida. Não sabia o que fazer nem quem ela era. Os dedos não tinham digitais. Nas mãos as linhas da vida e da morte sumiram. Agora somente a ausência de qualquer traço de identificação.

Olhou ao redor e viu que estava em um parque de diversões, mas os brinquedos estavam parados, desligados. O parque estava perdendo seus traços. A diversão já não estava ali, a energia fora dissipada.

No carrossel os cavalos tinham a crina baixa e eram incrivelmente pequenos, a montanha-russa parecia no máximo um montinho de trilhos e a roda que devia ser gigante estava diminuída por não rodar.

Nos carrinhos de guloseimas não foi diferente. O milho não se transformou em pipoca, o açúcar que não virou algodão-doce foi embora com o vento e do amor só restou uma maçã velha.

Ela continuou andando e viu um pardal. Os olhos dele estavam paralisados e o máximo que conseguia fazer era andar, porque tinha esquecido qual a utilidade das asas. Dava uns passinhos desajeitados e caia. Não sabia que era um pássaro.

Foi conseguindo identificar as coisas ao seu redor, mas ela mesma continuava um mistério, não sabia nem sua feição. Nada a conectava àquele mundo. Não entendia o que estava acontecendo.

Saiu do parque, olhou para rua e viu dezenas de carros vazios. Eles inspiravam o abandono de uma solidão desejada. Talvez ela tivesse feito por onde merecer um mundo só seu, para brincar de ser uma personificação divina. Começou a ficar tonta e resolveu voltar ao lugar de origem.

Sentou em um banco e quando abriu os olhos estava em parque de diversões e os brinquedos estavam parados. Em cima do banco tinha um caderno e uma caneta. Olhou para o branco da folha como quem enxerga uma salvação e começou a escrever:

“Quando abriu os olhos percebeu que estava perdida. Não sabia o que fazer nem quem ela era. Os dedos não tinham digitais. Nas mãos as linhas da vida e da morte sumiram. Agora somente a ausência de qualquer traço de identificação.”

Um ciclo infinito em achar e perder. Sonhar e acordar. Ser e esquecer.


*Título do livro de Lawrence Ferlinghetti
*Foto de Darlan Raymundo

domingo, 29 de junho de 2008

Dos pés a cabeça



No primeiro dia do ano acordou com tudo igual ao seu redor, as paredes desbotadas, a rachadura do teto e na cama a mesma mulher há quatro anos. Tudo morno, cinza e quase morto.

A parte mais animada do corpo eram os pés por causa das frieiras, que agora pareciam ter mais vida do que ele mesmo. Coçavam sem parar e despertavam o resto do corpo. Guerreiras.

Elas venceram. Levantou-se e foi ver a corrida na Paulista, não tinha o que fazer e nem pressa com nada. Caminhou e elas se acalmaram com o suor e a umidade, mas ele não.

Lá todos corriam para vencer e chegar a algum lugar. Ele era um intruso. Não corria e queria dormir. Pensou em voltar, mas essa hipótese causou uma vontade ridícula de correr.

As frieiras agora dominavam os pés, que cederam com animosidade para correr, mas ele não permitiu, apenas andou um pouco mais rápido. Não tinha para onde ir e nem queria voltar.

Foi caminhando em um ritmo mais acelerado e ficando cada vez mais distante das paredes do apartamento e da rachadura no teto. Longe da sensação de toda manhã. Acordar e sentir o peso de ser o que os outros não esperavam. Mentiu por tanto tempo que até acreditou que queria ser alguém na vida de alguém.

Ele não queria a estranha que acordava ao seu lado há quatro anos. Nunca quis nada na vida, nem mesmo a vida. Estava ali porque nasceu e só. Não teve opção e se talvez tivesse escolheria a mais cômoda.

Percebeu que estava correndo. Parou. Olhou ao redor e se deu conta que estava cansado. Entrou em uma farmácia e saiu com uma sacolinha nas mãos.

Voltou para casa. A mulher estava na frente da televisão bocejando e disse – “Fiz café”, ele balançou a cabeça e foi para o quarto. Tirou o sapato e olhou para eles e depois elas.

Malditas. Abriu a sacola, pegou a pomada e leu a bula “Indicado para pé de atleta e infecções cutâneas”. Não podia ter pés que o fizessem um atleta e uma louca vontade de correr para longe de tudo o que era cômodo e confortável.

Os pés se conformaram, assim como ele. Nunca mais esboçaram nenhum ímpeto aventureiro de sair por aí. Só ficou a lembrança de como quase perdeu o nada que era sua vida.



Imagem: Da cabeça aos pés - Por Paula M. Leite do Canto - 1999

domingo, 15 de junho de 2008

w[all] my life

Junto comigo caminhava uma parede. Era grafitada com as cenas da minha vida e passava como num projetor de filme velho. Acelerava nos momentos que queria rever e era vagarosa naqueles que queria esquecer.

Eu podia correr ou esticar o olhar, mas não via o final dela. Estava próxima, mas não o suficiente para tocar. De concreto somente as imagens que eu via.

Minha infância correu como um vídeo adiantado em que mal se entende as falas. A adolescência era nostálgica como a Sessão da Tarde e tinha até trilha sonora. Na vida adulta somente um fundo cinza com legendas amarelas.

Não esclareciam nada. Eram palavras soltas, jogadas na parede por quem teve pressa. Apareceram três pontos e as legendas foram embora. Eu continuava andando e do meu lado só o cinza e a incerteza do que viria.

Cansada e com bolhas nos pés de tanto andar com o vazio, apareceu uma curva. Excitação. Possibilidade de algo novo. Uma mudança naquela vida de andante, mas não veio nada. Era só uma imperfeição, parecia um erro de quem traçou aquela parede e aquele caminho.

Eu entendi a cor. Não tinha vida. Não tinha história. Era cinza porque não tinha nada, ainda.












“Quando pego no sono e sonho, não sei se estou no meu quarto ou se torno a acordar e tudo está acontecendo mesmo."

Charles Bukowski.

domingo, 1 de junho de 2008

O último dia da semana



Sair da cama não era algo a ser questionado. O frio, o carinho e os pés juntos formavam a combinação de como um domingo deve ser. Se lá fora estava um dia cinza, dentro do apartamento as conversas recortavam o sono e surgiam cores enquanto se mexiam. Gostava de fechar os olhos e saber que ele estava ao lado. Podia ter qualquer pesadelo e, ainda assim, acordar segura porque ele estava lá. O abraço dele esquentava até mesmo seus pensamentos mais solitários.

A tentativa de abandono da cama foi fugaz. Uma mudança para o sofá que não durou mais que uma hora. A preguiça e o amor não se acomodava bem ali, os sussurros eram bem melhores do que o som alto da TV e tudo era meio gelado e complicado demais para os pés se encontrarem.

Não tendo motivos para resistir, voltaram para a cama. Sussurros, abraços, beijos e carinhos. Até as cobertas se aqueceram com o calor deles. Tornaram-se parte. O quarto, a cama, as cobertas e eles, agora, eram um. Respiravam e sentiam junto.

O dia cinza trouxe a noite que fez questão de trazer as obrigações e responsabilidades de uma segunda feira besta. E agora o quarto é só um quarto, a cama nada diz e as cobertas frias, são testemunhas do que aconteceu naquele domingo.

*Imagem Kurth Halsey

domingo, 18 de maio de 2008

Lupino

Todo homem é uno quanto ao corpo, mas não quanto à alma.*

Ele fugia sem saber direito o motivo. Era como um instinto puro. Mesmo quando prometia fazer o contrário já era tarde demais. Desviara o olhar de um conhecido ou se escondia entre um livro.

Evitava as pessoas. Não acreditava que podia ser alguém agradável. Era sempre meio ríspido e quando seu instinto falhava, acabava sendo constrangedor para todos. Gostava de pensar que estava até fazendo uma boa ação, poupando as pessoas de sua companhia.

A solidão era uma opção, não era timidez como alguns gostavam de chamar. Algumas pessoas tentavam incluí-lo em conversas forçadas e em reuniões, como quem faz um ato de caridade ao convidar o esquisito para seu meio. Ele nunca aceitava esses convites e os poucos que aceitou levou consigo um silêncio que incomodava quem estivesse ao redor.

A mãe disse-lhe um dia que ele era como um lobo fora da matilha. Arredio, recluso, que por vez ou outra até podia ser bonito, mas ninguém nunca confiaria nele, a solidão era sinal do temperamento difícil, típico daqueles que morreriam sozinho.

Quando se dispunha a interagir tornava-se o lobo que sua mãe previra. Na tentativa de ajudar, mostrava os dentes e feria as pessoas, então percebeu que só era possível coexistir quando ele se calava e assim fez.

Nunca entendeu porque as pessoas insistiam em se multiplicar, com a desculpa de ter para quem deixar um legado. Acreditava que ter um filho era uma tentativa desesperada de ser criador, talvez um deus, mas que deus faria um ser com tantas anomalias e até capaz de deixar existir um homem com essência de lobo? Não existia o divino ali.

Para que uma matilha quando se pode ser sozinho? Para que uma sociedade quando você pode ser seu mundo? Foi meio homem, meio lobo. Morreu inteiro e sozinho e não deixou legado de sua existência lupina.


* Hermann Hesse, O lobo da Estepe.

domingo, 4 de maio de 2008

Aos que passaram

Na minha casa sempre apareceu tudo quanto é tipo de bicho, sempre foi meio incrível como aconteciam essas aparições. Chego a cogitar a hipótese de um código animal no qual eles identificam os bons lugares, sabe como é? Tipo as identificações de hotéis: quatro estrelas. Faça cara de coitado e ganhe comida e abrigo.

Teve uma gata que conseguiu leite e uma caixa de papelão com cobertor. Ela parecia uma colcha de retalhos, uma vira-lata cheia de cores, mas o que ela fazia mesmo era verificar a procedência da minha casa. Após dois dias ela apareceu com uma ninhada de cinco gatinhos bravos. Todos foram cuidados e todos morreram. Alguns insistiam em correr atrás das rodas dos carros (não eram muito espertos), outros sofreram pela covardia de um vizinho imbecil que os envenenou.

O motivo pelo qual esses gatinhos e a mãe não foram postos para dentro da minha casa, era que eu tinha uma outra gata, também com uma ninhada de seis filhotes. Essa era siamesa e chamava Madonna. Como uma boa gata, era arisca, tinha ótimos instintos e era linda. Nós duas fomos frutos de uma rejeição e nos encontramos nesse ponto.

Ela foi um presente para minha irmã e quando eu fiz quinze anos ganhei uma cachorra poodle, a Charlotte. Não era o que eu queria. A cachorra deve ter sentido minha rejeição e se afeiçoou a minha irmã. A Madonna ficou em segundo plano, assim como eu. Nós nos adotamos.

Teve um gato preto e branco chamado Sansão que era a coisa mais linda de se ver em um felino. Instintos aguçados, independente (ainda que sua independência estivesse em roubar comida na panela) e tinha a dose exata de arrogância que um bom gato deve ter. Eu e minha irmã o vimos na rua e trouxemos para casa com a mentira de que tínhamos tirado ele de um bueiro e que não tinha onde deixá-lo.

Teve o Tico, um cachorro que gastamos fortunas porque ele tinha problema respiratório. Era o cachorro típico, dócil, bobo e a procura de agradar seu dono. Mais uma vez eu e minha irmã que o achamos, a desculpa era que ele era maltratado pelo seu dono, mas isso era verdade.

Já tivemos aqui em casa hamsters, canários, tartarugas, cágados, papagaio, peixes, cachorros, gatos e até um camaleão que não tivemos coragem de manter , porque precisava de um lugar ideal.

Hoje são três cachorros e nenhum gato para minha infelicidade. Dois vieram da rua, o Tobias e o Leão e tem a Charlotte (a poodle que me rejeitou). Tem também os morcegos que alugam o pé de café durante a noite e os passarinhos que vem comer as frutas que meu pai coloca especialmente para eles. Em tempos modernos os animas não querem mais procurar comida e nos dias em que a minha preguiça é maior que a fome eu queria ser um deles.

Sem culpa alguma eu digo que sinto falta de quase todos os animais que já passaram pela minha vida e pouca de muita gente que passou. Porque os homens temem morrer e serem esquecidos e os animais não têm esse temor. Eles são. Somente isso.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Born to be alone

Já no ventre ele causou dor, chutava e insistia em quebrar aquilo que era sua casa. Parecia confiante em ser destrutivo por natureza e quando nasceu deixou sua mãe morta na maca daquele hospital.

O primeiro choro não foi de lamento como da maioria, foi um choro irritado, de raiva como de quem não quisesse estar ali. Não houve presentes e nem demonstração de carinho, somente a responsabilidade indesejada dos avós maternos.

Tornou-se criança sabendo da verdade. Para nascer tivera que matar a filha daqueles que o alimentava e muitas vezes achava justo não ser querido por eles, mas nem sempre compreendia, não se sentia um assassino.

Em um dos tantos dias intermináveis, voltando da escola, encontrou uma cadela prenha e a levou para casa. Seus avós não aprovaram muito a idéia porque ela parecia velha e doente, mas acabaram cedendo e a cadela ficou por lá.

O garoto cuidou dela até o nascimento da prole. Era uma cachorra pequena e dela nasceram quatro filhotinhos, mas um estava morto. Ele observou todo o parto e como todos eram cuidados e amamentados. Pensou que poderia ter nascido cachorro, talvez fosse mais feliz.

Após três dias a cadela estava mal. Ficava uivando baixinho e se contorcia toda. A cria estava afastada no canto da caixa de papelão. O menino chamou os avós numa tentativa desesperada de fazer algo, mas eles foram decisivos em dizer que ela estava velha e que morreria logo.

Ele não esperou. Ele a matou com uma pedrada e cessou aquela dor sem cura. Os filhotes o olhavam e ele temeu mais uma vez ser rejeitado e tratado como assassino. No dia seguinte não houve julgamento. Ele alimentou os filhotes com leite, os acariciou e acabou dormindo com eles no chão, com a cabeça na caixa de papelão.

A máxima igualdade que ele iria conseguir ali. Juntos. Os quatro. Órfãos.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Tears for you

Quero falar o que já falei outras vezes, mas queria ter dito ontem também. Sua lembrança esmigalhou meu peito sabe? Em alguns momentos fiquei meio besta e meio muda, porque quase não conseguia me mexer. Eu estar ali e você não, era ironia demais. A maior cretinice do destino.

Não estar por perto já é a piada mais sádica que qualquer um podia ter feito, mas não você, né? No meio de tanta gente tinha um buraco bem do meu lado. Um vazio que não cabia multidão.

Um outro amigo meu disse que temos que viver a vida como se fosse o último dia, mas não daquela forma clichê e desesperada que pregam os livros de auto-ajuda, de um jeito mais sutil, verdadeiro e possível. Ontem enquanto eu molhava meu rosto com um choro contido de raiva da sua ausência, tudo o que ele me disse serviu bem.

Eu sempre deixei claro meu carinho por você, teve tantos pequenos gestos e frases soltas que ainda hoje me fazem rir. De como éramos e do que poderíamos ser. Só que você foi embora e eu não.

Da última vez até parece que você se despediu, como que sabendo que não nos veríamos mais. Eu odeio ter que me contentar com pouco, e o máximo que posso ter sobre você são sentimentos de lembrança e saudade. Mesmo não cabendo a mim, não concordo com sua partida.

Então eu queria mesmo dizer que você fez muita falta ontem, como faz todos os dias e que eu chorei por raiva de não ter sua companhia, que aquele momento era seu, mas como você não estava lá, eu estive, e pensei em você como minha única forma de te fazer presente.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Para sempre

Ele olhava para aquelas barras e todo dia a ouvia chamar. Com um olhar afoito procurava por ela e a encontrava sempre com os cabelos cada vez mais negros.

Ela sempre usava um vestido diferente, todos o agradavam, só não gostava do modo como eles se revelavam toda vez que ela ia embora. Ele passava a mão nos cabelos dela e sentia seus dedos e sua vida escorregarem naqueles fios. Ele sabia. Ela sabia.

- Eu não consigo me ver sem você, meu queridoela disse.

- Ah eu também não vivo sem você ele respondeu.

- Não me iluda, não sou cega. Você consegue ficar sem minha presença – e como em todos os dias ela perguntava a mesma coisa, naquele tom melancólico e de súplica.

- Porque, meu querido? Porque, meu amor? - ele abafava as palavras dela com um beijo de perdão. A pergunta o torturava mais do seu próprio feito.

Ele teve medo daquele dia que resultava sempre nas perguntas da mulher que amava. Ela sabia claramente o que houvera, só não entendia e por isso continuava perguntando.

Muitas vezes ele não conseguia evitar que ela formulasse sua pergunta por completo e tinha que responder. Esclarecer o que carecia de explicação e dizer tudo o que não queria.

- Eu sempre a amei, por favor, nunca duvide disso, eu ainda a amo. Naquele dia eu vi sua foto na nossa cabeceira. Você lá, linda e sozinha. Eu não estava ao seu lado e você parecia incrívelmente feliz. Sozinha.

- A imagem me atormentou por horas até que não tive mais escolha. Eu fui até você na beira do riacho e a vi, linda, perfeita, lavando nossas roupas e sabe, você estava sozinha.

- Sua individualidade ria do meu amor, provava que eu não era nada. O que fiz foi um gesto de amor, eu perpetuei nosso amor, entende?

- Está vendo como deixou meu vestido? Você disse que gostava de meus vestidos, mas olha o que fez com todos eles – ela disse balançando a cabeça e repetindo sua pergunta.

- Porque, meu querido? Porque, meu amor cravaste em mim teu punhal? Meu peito tão jovem sangrando assim, porque esse golpe mortal?

E mais uma tarde ela ia embora com o vestido sujo de sangue e os cabelos cada vez mais negros, como um espelho do que sentia.





"E eu preso aqui nessa cela

Deixando minha vida passar
Ainda escuto a voz dela
No vento que vem perguntar:
"Por que, meu querido
Por que, meu amor
Cravaste em mim teu punhal?
Meu peito tão jovem sangrando assim
Por que esse golpe mortal?
Cravaste em mim teu punhal
Por que esse golpe mortal?"¹





¹Idéia original e frase de Raul Seixas – À beira do pantanal

segunda-feira, 10 de março de 2008

Nós dois

O dia termina e ele não está do meu lado. É meio imbecil porque resolve vir quando eu não o quero e sadicamente ri as minhas custas. Eu sei que ele vai chegar quando não preciso e quando eu mais desejar não poderei contar com ele. É um idiota com poucas funções que não sabe desempenhar.

Ultimamente tem agido como um rato que chega à surdina e quando vai embora, fica a bagunça e uma sensação de mal estar. Eu acho que na verdade ele é um rato porque consegue chegar a lugares pequenos que, sozinha, eu não chegaria. Insiste em achar e me mostrar coisas estranhas quando está comigo. É um susto, um choro, um riso nervoso ou uma lembrança há tempos guardada. Ele tem todas as minhas chaves.

Um rato com chaves, isso sim é perigoso. Se ele já entra em quase todo lugar, imagine com as chaves como item facilitador. Um pesadelo ou com coisas ruins é como ele me presenteia quando vem.

Quando era mais jovem ele nem se importava em me importunar, vinha e ia tão rápido que eu nem notava. Era mais carinhoso. Agora ele vem com tapete vermelho, anunciando sua chegada triunfal. Ficou arrogante e quer estabelecer tudo como acha melhor, mas eu não deixo ou pelo menos tento.

Algumas vezes procuro por ele desesperadamente e tento agradar com alguns mimos. Uma massagem, um livro, boa música e até um chá, mas admito que ele vem se mostrando mais forte. É orgulhoso e não se vende por pouco.

Eu fecho os olhos e tento trazer ele para perto com a força do pensamento. Visualizo passo a passo, penso em como seria bom ter ele comigo porque sinto falta dele, admito. E cada dia mais essa ausência cansa e fico imaginando a sensação do momento da chegada e como será quando ele me tocar novamente.

Assim é nossa relação. A mais clichê possível, um misto de amor e ódio. Quando eu o quero, ele não quer e quando ele me quer, não posso ficar. Vivemos nos opostos, sempre. Platônicos em estágio avançado, irremediáveis e sem esperança de melhora.

Espero sua visita, estou com saudade, mas, por favor, não traga presentes, venha sozinho. Só você já me basta por essa noite. Não traga pesadelos, sonhos ou inquietação, não gosto deles.

Quero você sozinho, como tem que ser. Os dois na cama e nada mais entre nós.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Final inacabado

Ele a olhou, mas ela não respondeu ao seu olhar. Buscava seu toque e não encontrava, o amor tinha ido embora. Era isso.

Fechou os olhos e em sua escuridão tentou buscar um argumento que reatasse o que fora desamarrado, de ter tudo de volta.

Lembrou do dia que se conheceram e da síndrome de gagueira que tinha quando a encontrava e do meio sorriso dela quando estava brava, mas acima de tudo era o beijo que ele lembrava. Ele precisava daquele beijo.

Abriu os olhos e num impulso roubou lhe um, mas não sentiu em seus lábios aquele gosto tão peculiar, um misto de amêndoas, café e ela. Sabia o que estava acontecendo, mas não podia conceber a ausência do amor dela.

Sentia um tremor por todo o corpo, seus músculos estavam se retraindo como que tentando fazê-lo encolher, diminuto até não mais ser. As mãos suadas, como gotas de um suor lacrimoso. E o coração? O que pretendia insistindo daquela forma? Cada batida uma dor diferente, cada compasso uma outra sinfonia decrépita. Era ele, literalmente de corpo e alma, sofrendo a dor que nunca imaginou.

Sem saber mais o que fazer e como quem não quer aceitar o que o destino traçou, ele a pegou pelos ombros e com lágrimas nos olhos deixou seu desespero falar.

- Porque você está me deixando? Eu ainda te amo, não vê isso?

Não posso viver sem você, simplesmente não posso.

E eu me lembro daquele dia no metrô, você me prometeu que nunca me deixaria, nunca! Volta por favor...

Foi um dos monólogos mais triste que as pessoas em volta presenciaram, pois assim como as velas em torno dela, ele também se desfazia só que sem nenhuma chama e no final de nada valeu dizer que a amava, porque ele a olhava, mas ela não o via, falava com ela, mas não tinha respostas e mesmo ao seu lado já não a sentia.

As lágrimas dele caíram no rosto dela, que permanecia imóvel, com uma serenidade perturbadora. Sabia que era a ultima vez que a veria, a devolveu delicadamente sobre o que seria sua cama, dura e fria para sempre. Diferente daquela que dormiam antes, diferente daquilo que planejavam antes.

Antes de tudo, antes daquele dia, antes do amor ir embora.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Dust in my soul

Está chovendo e a coisa mais clichê que se pode dizer da chuva é que ela lava a alma. Ela não faz isso. Na verdade acho que minha alma nunca precisou ser lavada. Só preciso tirar a poeira às vezes, quando esqueço quem sou, me perco e zanzo por pessoas que não sou eu.

Nunca sou alguém muito diferente de mim mesma, são derivações, daqueles que me identifico com a melancolia e com a alegria. Melancólica que sou, acabo descobrindo mais cedo que a alegria não me pertence, não como nas pessoas tão sorridentes que eu desconfio que estejam em um filme e que já tentei interpretar.

Meus sentimentos não têm padrão nem receita, não fico feliz quando obrigatoriamente deveria estar e nem triste quando tenho tudo para isso. É uma convivência contraditória entre o que acontece, o modo que deveria me sentir e a forma como realmente sinto.

Tenho ataque de risos, e lembro que minha mãe me diz "Quem muito ri, acaba chorando" e choro, ainda que por conta das gargalhadas, mas depois essa sensação vai embora, o que resta é a vontade do choro pela ausência de algo que me faça rir dessa forma, me sentir assim sempre.

Alegria e felicidade são drogas perigosas. Elas se apresentam, se mostram com todo seu vigor, são bonitas e sempre cheia de dentes e depois somem, vão embora. É uma substância narcótica tão poderosa que as pessoas passam suas vidas em busca dela. Farejando como os cães e desesperados como adictos em crise de abstinência.

Eu não quero mais, obrigada. Não quero essa canastrona que nem sempre encontro e que me cansa. Minha vida é em busca de quem eu sou e não dessa falsária alucinógena.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Deslizes, desvios e devaneios

- Caramba que mesa grande.
- É oficial.
- Ok, agora eu perco oficialmente, que bonito.

Na sinuca é preciso calcular a força do taco, com a velocidade da bola e todo o inesperado que possa acontecer como matar a branca ou ela resolver ter complexo de ping-pong e sair pulando da mesa.

Com a tal mesa oficial, tem algumas coisas mais frescas, tipo bolas listradas e lisas (ou estampadas e lisas que pode ter alguma conotação com o mundo da moda ui).

Há também a possibilidade de um jogo mega injusto com a tal bola oito, o “8ball” (chique não).O cidadão desavisado que matar a maldita bola antes do tempo perde o jogo, isso porque ela desempenha o papel derradeiro da discórdia, quem assassinar a cuja no final, veja somente no fim do jogo, vence.

Ufa. Complicado? Nem tanto, porque na verdade o jogo é o mesmo, o que muda é a forma que se joga. Tudo vem do mesmo lugar. Quer ver? Repete snooker, snooker, snooker... vai para snuq, snuq, snuq... fica snuca, snuca, snuca e por fim sinuca, sinuca, sinuca, viu só? Daí o nome.

Tudo é um pouco derivado nesse mundo e só citei o jogo dos tacos e bolinhas porque comecei a jogá-lo com meus amigos, assim sem pretensão nenhuma, e acabamos mais rindo do que qualquer outra coisa, por isso eu gosto de sinuca e lógico que adoro eles. (prepare-se, assunto clichê aproximando-se).

Amizade é um troço estranho, desses que a gente não compreende direito e sente sem saber o que está sentindo sabe?

É difícil delinear e entender porque a companhia de algumas pessoas faz com que coisas simples ganhem significados diferentes daqueles normalmente atribuídos.Não é algo simples, porque é mais do que carinho ou afinidade, é um sentimento muito mais primitivo, que vem da escolha mútua daqueles que escolheram se aturar.

Como mirar e não saber se vai acertar. Vencer. Com a mais complexa precisão saber que o resultado pode ser desastroso. Perder, e na maioria das vezes, sorrir.