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domingo, 5 de outubro de 2008

Sedução

Com as peças em seus devidos lugares, inicio a primeira ação. A situação já foi analisada e revista, a estratégia não é simples, porém o resultado vale os obstáculos a se percorrer. As brancas começam, a rainha está a postos e o meu objetivo: o rei.

De passo em passo me aproximo. As táticas deixam tudo muito óbvio logo de início. Uso todas minhas armas para te fazer crer que, nessa partida, eu sou vencedora. Você não se faz de díficil. De peça em peça me aproximo.

Sem o dominío do tabuleiro, você se sente encurralado. Pare de fingir que tem alguma chance! Eu sei que você quer que eu ganhe. Os obstáculos não me detêm. Dê mais sentido às construções, derrube teus muros que eu tomo tua torre.

O pragmatismo é decifrável, fuja do simples. Suas crenças se desfazem enquanto você se movimenta. Não tente recuar, um peão não tem esse direito. Tome seu lugar neste tabuleiro. Só será rei quanto eu te nomear. No meu jogo é a rainha quem controla, deixe-se levar.

Não ande em círculos, meu querido, posicione-se corretamente, não se perca na jogada. Você sabe das minhas intenções, liberte seus instintos. Estou chegando ao ponto, talvez seja sua hora de me capturar.

São três opções: fuja e mova-se para o jogo de outrem, invente a segunda peça e me faça parar, ou me capture antes que seja tarde demais. Joguei as rédeas em tuas mãos, qual será a decisão?

Xeque-mate.

Desde o inicio você já era meu.







domingo, 21 de setembro de 2008

Casulo

Há aproximadamente dez anos atrás eu comecei meus estudos. Muitos diziam ser ridículo, gênios diziam ser uma lenda, filósofos romantismo, psicólogos alucinação, matemáticos indecifrável, mas conforme meus testes e analises a probabilidade existia e, portanto, era uma teoria a ser estudada. Einstein já havia desacreditado tal fenômeno em 1939, quarenta anos depois eu procurava comprovar o contrário: das estrelas nascem os buracos.

Dias e dias no laboratório, sem comer dormir viver. Minha energia era comprimida junto aos astros, as fusões nucleares o criavam e me destruíam. A cada passo errado, os cálculos iam para o espaço, minha cabeça explodia e eu sentia que o tal buraco negro só se formava em minha cabeça.

Horas e mais horas de dedicação. Meu peso diminuía conforme a massa das estrelas ultrapassava o sol. A densidade se colocava contra o volume, me atraindo para o caótico breu imaginário. Toda luz captada o fazia cada vez mais negro. Meu cérebro, o tal buraco.

Assim como toda a matéria era extinta, minha sanidade corria perigo quanto mais eu me aproximava de soluções. Teoricamente, o astro exerceria forças que destruiria agressivamente qualquer corpo. Só a distância me separava desta energia, minha mente já trilhava o caminho rumo ao fim. Como resultado, a auto-degradação de uma mente fértil.

A lagarta não se transformou em borboleta. Não resisti à morte de minhas estrelas, o buraco me engoliu por inteiro.

domingo, 7 de setembro de 2008

Utopia


Dentre tantas qualidades, algo me faltava. Sentia que a perfeição estava a um passo, e mesmo assim nunca conseguiria alcançá-la. O último detalhe me era negado, e isso me abalava mais que tudo. Ninguém especial o colocava fora de alcance, minha mente e meu corpo sofriam das limitações. Minha cabeça, sempre tão fechada, relutava em acreditar na impossibilidade. A caminho de me tornar aquilo tudo que todos queriam, a liberdade me fez falta.

Só nos vôos da minha imaginação, eu era quem realmente sou. Escondida da realidade, eu flutuava por minhas verdades, brincava com minhas incertezas e me perdia em expectativas. Conseguia viver o medo que invadia meu corpo quando fugia do caminho já traçado. Poucos entendiam minhas viagens particulares, pois só eu conhecia o destino.

- Nada sozinha, escala montanhas, liberta desafortunados. Há algo que não faça?
- Voar.


* Título e diálogo: Ever After / Imagem: stellaimhultberg.com


domingo, 24 de agosto de 2008

desejos

De todas as palavras que te disse ontem, quais não passaram despercebidas? Porque parece que pelo meu discurso, você só sentiu tesão.

A marca dos dedos ainda ardiam no seu rosto. A voz cessou. De repente suas costas tocaram na parede gelada, seu gemido de surpresa passou despercebido dentre tantos outros gemidos. As mãos percorriam os caminhos já conhecidos e, no ápice, prendiam seus pulsos, estendidos junto a parede. Ele dominava os movimentos, suas preferências, seus pontos. Seu prazer. Ela buscava seu corpo, sentia-se perturbada pela excitação reprimida por tanto tempo. Jogavam a favor dos seus instintos.

Não chega perto de mim. Esquece a porra do sentimento. Não dramatiza a situação, porque para as minhas necessidades, teu beijo não é essencial. Some da minha frente. Volta pra tuas putas, e dê a elas a porra do carinho reservado para mim.

Enquanto as palavras eram ditas e os olhos denunciavam o ódio, ele se aproximou. Os berros o deixavam louco. Já sentia o gosto de seu hálito, ela ainda gritava. Segurou seu braço, que insistia em apontar na sua direção, agarrou seus cabelos pela nuca e, antes que ela pudesse reagir, já estava a beijando.

Não tá funcionando. Enquanto eu te espero durante as noites, você circula com aquele bando de vagabunda. Roda bares como quem não tem par, usa pessoas como quem não tem caráter. Percebe que eu não suporto mais? Percebe que eu sei dos outros corpos, e que o amor que você diz sentir não me é suficiente? Que além de sentimentos, me fazem falta tuas mãos pelo meu corpo?

Ele entrou pela porta bêbado. Entre as luzes apagadas distinguiu seu contorno. Ela estava sentada nas escadas, o esperando, como nunca fizera antes. Talvez algo tivesse enfim a despertado do marasmo e aceitação em que vivia. Isso o excitou. Talvez essa fosse sua chance de desabafar as verdades que vinha escondendo na expectativa de que o jogo virasse. As outras eram passatempo, procurava bocas em busca do seu gosto, olhares em busca do seu prazer e corpos em busca do seu sexo.



*img Desejo - www.rafaelnobre.com

"o desejo é infinito, e a realização limitada. Vontade indica necessidade,

e o que ela pretende agarrar é sempre maior do que sua capacidade"

domingo, 10 de agosto de 2008

dúvidas

Sentei-me à escrivaninha com a certeza em mente. Há tempos não usava aquela cadeira, esquecida no canto do quarto, servindo de cabideiro. Com papel e caneta na mão me perguntava por onde começar. Talvez o passado fosse um bom tempo para se relembrar, talvez o conflituoso presente precisasse ser explicado, ou ainda talvez fosse melhor te contar sobre a calmaria do meu esperado futuro. Mas quanto a esta última conjugação temporal eu tinha minhas dúvidas, e o simples ato de me sentar à mesa com este propósito representava a solidão em que me via. A falta de contato dos anos te transformou em um estranho. O endereço estava confirmado, o nome do remetente sempre fora conhecido, mas a coragem de te encarar novamente, mesmo que por uma simples carta, me fazia estremecer. As mãos deslizavam pelo rosto, os pés batucavam no chão e as pernas inquietas demonstravam toda minha impaciência. Você sempre me deu medo. Suas ações frente às minhas, tua reprovação, meus atos incertos.


Você nunca me aceitou.


Talvez nestes exatos 28 minutos eu tenha percebido que uma carta não faria diferença no transcorrer de nossas vidas. Talvez nestes tantos 2 anos eu tenha esquecido o quanto você me fez sofrer e que te reencontrar, nem que seja por palavras, não vale a pena. Talvez somente neste segundo eu tenha entendido que não existem acasos e milagres na história de um amor acabado. E, dessa forma, talvez esse seja só o resultado da reflexão sobre uma carta inexistente.


* tangled hair and dragonflies by ~noINKling

domingo, 27 de julho de 2008

decadência

Em busca da imagem que procurava, olhei no espelho. Tinha esquecido há quanto tempo buscava ali o que certamente não encontraria. Só enxergava o reflexo das garrafas jogadas pelo quarto, a cama bagunçada, as cortinas fechadas. Enfim, o buraco em que eu vivia atualmente. A barba por fazer e o cabelo sujo denunciavam o tempo em que estive entregue a nada, nem ninguém. Uma jornada inútil rumo ao esquecimento.

Meu corpo estava molhado, os pesadelos tinham me acordado no meio da noite. Eles gritavam ao meu redor, ainda podia ouvir as vozes vindas de algum lugar dentro da minha cabeça. Eram reais. Minha mente se chocava com o inconsciente em busca de salvação. De algum modo eu buscava esperança e tentava me agarrar a algo sólido. Minha mente estava vazia, nada me segurava, eu caia. O fim do abismo estava próximo. Neste ambiente frio, seco e marcado por uma história infeliz, tudo o que se encontraria seriam desgraças e dores. Na minha cabeça, o desprezo era comandante de um corpo escravo cansado de viver.

A solidão me roubou as chaves da realidade e a consciência me negava a visão futura, um relance da continuação. O culpado pela sobrevivência era o mórbido prazer de planejar o fim. Meu estômago se contorcia com as infinitas possibilidades. Uma ampla gama de variedades para acabar com minha vida.

O ato final do espetáculo da minha vida foi sadicamente planejado. Ironias de um passado frustrante, um presente degradante e um futuro em paz.

_____________________________________________________________ Fim.

domingo, 13 de julho de 2008

Você me fez acreditar que a imaginação se fortaleceria, que em algum espaço de tempo nossa vida se tornaria aquilo que a mente sonhou. Suas palavras me iludiram, mas não sou menos culpada por tê-las ouvido. Descarto-as nesse momento, junto com todo o amor que senti por você, junto com minhas esperanças, junto com meus planos e os possíveis caminhos que trilharia ao seu lado. Da minha vida, você não faz mais parte. O adeus é tão doloroso quanto a certeza de nunca mais te ver.

E desse modo talvez eu consiga acreditar que foi tudo um rompimento. Que sua vida segue, solitária porém real. Entre os fantasmas que atormentam meus sonhos, você não poderá fazer parte, pois seus passos continuam sendo impressos, pois você passa. Durante a noite, me apegarei ao vazio que criei, e das suas mãos geladas, só me restará o frio.


Adeus, meu amor, descanse em paz.

domingo, 29 de junho de 2008

Do 1º ao 2º

Se escondeu entre os lençóis como se aquele fosse o último dia, o dia do julgamento final, no qual precisasse apresentar todos os seus pecados à comissão julgadora do paraíso. A última noite não tinha sido um exemplo de boa conduta. Após algumas doses de vodka, muita música alta, luzes, carros, pessoas ... bom, depois disso tudo já não se lembrava de muitas coisas. As imagens se dispersavam em sua mente, sem ponto de congruência, sem ligação, sem esclarecimentos. E, de repente, a lembrança surgiu, ele.

Foi ele quem a mandou parar de beber, quem a buscou na pista quando todos desapareceram, quem a levou para casa, a colocou na cama e com um beijo se despediu. Um beijo, um esperado primeiro beijo, que ela, infelizmente, estava bêbada demais para comemorar ou retribuir. Maldição.

Levantou num piscar de olhos, colocou a primeira roupa que achou no armário. Se olhou no espelho e achou a combinação entre verde e laranja humilhante demais, trocou tudo pelo preto básico que realçava ainda mais suas olheiras. Não havia tempo para maquiagem, ela sabia que ele viajaria nas próximas horas, voltaria para o interior. Tênis, iogurte, cadê as chaves do carro? Ele ficou com o carro, corra.

Um metro e dois quarteirões depois e ela estava frente a frente com ele. Não esperava encontrá-lo colocando o lixo para fora, de bermuda e chinelo.

- Oi. É, to melhor sim. Viu, obrigada por ontem, nem tive tempo de agradecer. Agradeci? Não! Foi você quem me beijou. Como assim? Tem certeza? Me desculpa. Gostou? É, eu também. Sabe, não queria que fosse naquela situação, mas... é que eu gosto de você, me sinto bem com você. Juro, é sério! Ué, mas porque não me disse antes? Porque não tomou uma atitude? Pfff, coragem? Não vem com essa, todos usam a mesma desculpa. Claro, fiquei decepcionada. Como assim consertar?

Um não esperado segundo beijo.

domingo, 15 de junho de 2008

that's what this is about

Para de agir como se soubesse de tudo, como se a simplicidade da situação fosse uma escolha, como se a possibilidade do fim imperfeito tivesse sido cogitada. Porque às vezes eu tenho motivos estúpidos e você não pode me fazer crer que eles estão corretos. Eu perco a cabeça, perco o rumo, me perco. Ignoro o ponto de partida e digo o além.

Talvez nós estejamos sendo idiotas. Essa charada eterna precisa acabar. Os pontos e vírgulas precisam achar seu espaço nas frases soltas que colocamos entre nós. O silêncio encontrou seu caminho até aqui, mas ainda podemos ouvir as memórias. Esqueça que eu fiz parte de sua trajetória e construa sua vida longe de mim. Pois saiba que a cada beijo, você deixa seu nome em meus lábios. E que seu gosto e suas letras só terão fim quando jurarmos que assim será.

Eu estava em meu caminho até você aparecer e atormentar minha vida com a felicidade dos tais momentos inesquecíveis. Te disse que nunca esqueceria, só não pensei que a lembrança seria tão amarga. Então, garoto, não atrapalhe ainda mais as coisas. Acabe com tudo e tome seu rumo. Não me leve junto para o poço onde você se joga. Eu não saberei o modo certo de te dizer obrigado, de te dizer adeus, mas carregue o som do meu silêncio como chave de sua liberdade. Me retiro do seu caminho, me retire de seu caminho. Me esquece, por favor.

E se falei uma ou duas coisas desnecessárias, foi só porque não tinha o que dizer. Confesso os contornos, os gritos e discussões desconexas que você por tantas vezes me culpou. Confesso ter traído a conversa para fazer com que você perdesse o foco. Nunca tive coragem para despedidas. Nunca tive coragem de te perder.

Você sabe que vou tentar fazer tudo certo dessa vez. Eu aceitarei as conseqüências da escolha. Da sua, da minha, da nossa discordante escolha. Simplesmente porque eu te amo, e não posso mais suportar isso.



A inspiração é o álbum "Hello, good friend" do The Rocket Summer.

domingo, 1 de junho de 2008

prefácio

Em um determinado momento percebi que todo meu bloqueio era ilusão. Eu tinha muito a dizer, mas não queria compartilhar. E foi essa sensação que me engasgou durante meses.

Os textos se formaram em minha cabeça muito antes de irem para o papel. Tudo o que eu queria escrever e relutava. È a minha visão, cercada por milhares de referências que me remetiam a cenas e palavras e sentimentos. Já me adianto avisando: fiz livres adaptações no meu conto-de-fadas particular, que por certo você reconhecerá. Não se assuste, existem detalhes reconhecíveis, outros que só a mente de uma mulher é capaz de guardar.

Isso seria, antes de tudo, parte do meu diário inexistente que, por motivos ainda indecifráveis, resolvi compartilhar com você. Trate as palavra com o carinho que dedicou aos meus sentimentos, pois cada verso transborda minha essência. Ouça minha voz e perceba que tudo ali é inspirado em você, em nós, em uma história que pode acontecer. Que você goste de lê-la tanto quanto eu gostei de escrevê-la.


A carta


domingo, 18 de maio de 2008

propriedade


E foi sem procurar que o achou. Na vida, sempre deu voltas atrás de alguém que a satisfizesse, mas os caminhos a levavam para corpos errados. Ou talvez fosse ela quem os errasse em suas frustradas tentativas de se entregar.

Formulava defeitos, transformava os detalhes em obstáculos na sua vida. E quando, na tentativa de agradá-la, via sentimento demais em relações rasas, encarregava-se de livrá-los de maiores dores futuras, fechando portas e passagens, desfazendo caminhos e apagando sonhos.

Criticava o rumo da sua vida, mas percebia que suas escolhas o faziam assim. Os bloqueios, fugas e traumas eram maneiras de abreviar a história, de fazer valer o pouco antes que o resto estragasse tudo.

De repente ele apareceu e mexeu com suas convicções e planos traçados. E a tortura de ver a ficção se tornar realidade a deixou confusa. Não deveria ser desse modo. Quando finalmente o encontrou, percebeu que preferia o irreal, porque assim dava chances aos errados, enquanto o aguardava. Mas agora tudo havia mudado. Com ele ao seu lado, os errados eram só errados, e as aventuras de sua vida já não faziam mais sentido. O tédio de ter algo que desejou a matava aos poucos. A incessante busca acabou. E agora?

Alguns diziam que bastava ser feliz e aproveitar os tempos bons. Mas não lhe entregaram o manual do perfeito viver. Em sua vida desequilibrada, felicidade não fazia parte do roteiro. E foi procurando acertar os passos, que arruinou tudo. Sua insegurança o abalou, sua falta de perspectiva o fez acreditar que nada era recíproco e, antes que ela pudesse fazer algo, foi ele quem deu o próximo passo e fechou a porta.

De um modo ou de outro, a inconsciente auto-sabotagem havia funcionado novamente.

E com você achei o que procurava. O porto do qual ouvia falar, mas nunca havia achado o caminho; a mão pra me guiar quando não soubesse por onde seguir; lábios para tornar salgado se as lágrimas ousassem cair. Estúpido da minha parte acreditar que tais lágrimas não seriam por você, e que as mãos que precisei, me afastariam do nosso caminho. As ruínas do porto continuam demarcando seu território inexistente em meu peito.

Ass. não mais sua


img - http://www.ideafixa.com/

domingo, 4 de maio de 2008

pretérito perfeito

Sua imaginação sempre a levou onde gostaria de ir e montou as cenas em que gostaria de atuar. Interpretava a protagonista de um grande roteiro escrito em sua mente, criava lugares pelos quais rodava o mundo sem destino certo, sem futuro previsível. Fazia da vida conto-de-fadas, mas não se importava com o final feliz. O final viria depois, aproveitaria antes seu presente. A imaginação a levava até a Inglaterra, onde andava pelos campos gramados de Hampshire, com a seda de seu vestido a voar conforme o vento a alcançava; por vezes voltava no tempo e visitava a França do século XVI, se perdia em antigas ruínas enquanto ouvia sua trilha sonora previamente montada nos fones de ouvido; ou partia rumo à lugares desconhecidos: perdia-se entre cerejeiras orientais e procurava beleza em rostos de pó e carmim, vagava por vilas espanholas com o barrado do vestido vermelho a roçar o chão de areia; buscava novos olhos e outras mãos como a cigana romena; vivia e morria a cada raiar do sol.

De fantasia era feita sua realidade. Enquanto sonhava com o irreal espantava os pesadelos de sua vida. Fazia do insuportável mera obrigação, o viver era o detalhe que incomoda mas autoriza a satisfação. Em seu mundo particular criava cenários, montava diálogos e escolhia os personagens. Seu papel, a garota, era sempre o mesmo, sempre a mesma. Inocente, ingênua, fraca. Tinha a nítida impressão de que não pertencia ao mundo real. Seu romantismo exagerado era ridicularizado, nascera mulher de um século errado.

- O fardo de abrir os olhos me tortura. Nos minutos em que encaro a realidade me perco pelas vielas do real. Não sei andar pelo asfalto, desconheço o som da cidade, não respiro o mesmo ar dos que cruzam meus passos. Minha estrada é outra. Em algum ponto de minha vida fiz a escolha errada, segui pelo caminho contrário à sociedade. O escuro não me pareceu mais atraente, o desolado, o inconseqüente. Optei pelo meu vazio, meu claro vazio, este em que eu posso escrever e dar o rumo que seguirei. Pois só desse modo controlo minhas pegadas e prevejo os acontecimentos. Todos eles criados momentaneamente. Eu decido o trilhar. Nas minhas histórias posso não saber o passo a dar, mas em minha realidade, tudo o que encontrar, levará ao o meu fim. Adianto-o: aqui o tens.

Vagando pela Irlanda com os pés na areia de Dingle, enquanto o sol de inverno brilhava em seus olhos, deu seu último suspiro real. Continuaria a habitar outros mundos, não mais aquele ao qual não pertencia.

domingo, 20 de abril de 2008

errata

Enquanto omito a verdade inerente à realidade e me faço de boba, iludindo os pensamentos quanto ao voltar do bom passado, crio frágeis expectativas prestes a ruir sobre meu viver.

E desse modo saudosista vou vivendo e encarando os fatos que insisto em mascarar com imaginação.

Me perco na ficção, esqueço os detalhes e faço do geral meu domínio. Aprendo a ocultar as diferenças e vejo em todos ao meu redor as marcas e qualidades que faltam em mim.

Não sou escrava do perfeccionismo, mas nego os defeitos, teus e meus, e busco o ideal. Finjo não acreditar nos vícios e erros, crio estereótipos em minha mente e te encaixo como em um quebra-cabeça que nunca se completa. Você se transforma em uma peça na história infinita do meu jogo, não é rei nem peão, só o pedaço de imagem que me remete às recordações de momentos compartilhados.

Assim construo meu passado, e entristeço o futuro ao pensar que nada passa de uma fase em que ganhar nem sempre será minha escolha. O livre arbítrio me faz perder, te perder, pois a liberdade me guia erroneamente. Não acredito nas minhas escolhas e me direciono pelo caminho errado, enganando a superficial felicidade.

Te busco, me guie.

domingo, 6 de abril de 2008

geek

Fazia sol e ela tinha ido ao parque. A leitura estava quase no fim e queria terminá-la como a personagem, com a cabeça livre dos problemas já resolvidos. Não seria tão simples, pois seus problemas só a deixavam em paz entre a primeira e a última página. Foi ali sentada que, de repente, despretensiosamente, o conheceu, num tropeço.

- Oi, desculpa, tô com pressa... você sabe onde fica a rua Mário Antônio? Não? Me disseram que era por aqui. Aliás, bela camiseta. O que tá escrito? Sweetzerland? Bacana. A praça Marquesa é por aqui? Me disseram que era perto. Minha vó era polonesa, falava algo de alemão. Não, só sei o básico. É, Scheisse e Huresohn. Palavrões? Sério? Desculpa. Que horas são? Acho que tô perdido. Esqueci de oferecer, coca? Dia bonito. Posso sentar? Era, uma entrevista. Designer. De internet, sim. Que rua é aquela? Mas você não é daqui? Presumi, ninguém vem de muito longe para ler no parque. O que é? Eu gosto de Johannes Vermeer. Um romance, sério? A Holanda deve ser fabulosa. Prefiro lírios ... É, vou tentar me encontrar. Um prazer, tchau.




- Oi. Sim, voltei. Sei lá, eu não queria ir embora. Seu sorriso me faz bem.

Ela ainda não sabia, mas seu livro terminaria com os mesmos problemas. No entanto, um final feliz a aguardava.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Pandora

O medo a fazia recuar diante do inesperado, de modo que não precisasse lidar com situações em que fosse colocada contra a parede. Relutava em usar a espontaneidade para solucionar seus problemas, suas fórmulas pré-testadas eram garantia de paz. Fugia de ligações e relacionamentos, evitando o que aconteceu da única vez em que entregou sua caixa aos homens, ao homem, a ele.

Seus medos, sofrimentos, alegrias e lembranças. Tudo ali dentro, misturado ao seu caráter e personalidade. Todos os sentimentos que incorporou em sua mente e marcaram seu passado, resultando em presente. Imprudentemente entregue ao cara que havia lhe conquistado o coração e, no entanto, não soube lidar com o conteúdo ali inserido. Menosprezou seu espírito e o desafeto se instalou junto a tudo que havia de bom.

Quando enfim chegou o momento de retomar a caixa, já não havia nada além de medos, desinteresse e apatia. Soterrado pela infelicidade, o amor procurou abrigo fora do coração, escondeu-se entre os sorrisos tímidos, a insegurança e a desgraça da falta de sentimentos, esperando ser resgatado por alguém mais cuidadoso.

A caixa voltaria a ser entregue, mas seu conteúdo jamais seria o mesmo. A ingenuidade havia desaparecido entre as dores do mundo.

e que não me venham falar da dor e de sua beleza. pois só assim a vê, quem não sente. enquanto glorificada desgraça a vida alheia, que teme em sentir a paixão resumida na palavra. pois não há significado para três letras que te tiram a paz. mais triste é aceitar que o resultado da fórmula para evitá-la, a única forma de não sucumbir a dor, seria a esperança esquecida entre os sofrimentos. no entanto, minha fé se faz fraca e talvez o que me mantenha sã seja somente a revolta contra o amor.

domingo, 9 de março de 2008

Obsessão

Apoiada com os cotovelos na mesa ela pensava no que seria dito nas próximas horas. A situação delicada a impedia da verborragia natural dos diversos encontros. Teria de dizer tudo a ele, não poderia poupá-lo dos fatos que se concretizavam em sua mente e a impediam de estender a atual situação que, talvez por indiferença ou descompromisso, ele fingia não saber. Porque ele sabia, ele devia saber, mas desde o começo o pacto silencioso foi de nunca expressar em palavras o que poderia ser sentido. O jogo se invertera. Lá estava ela, sentada naquela mesa do bar lotado de pessoas estranhas a procura dos olhos destinatários que deveriam surgir a qualquer instante roubando seus suspiros. Tinha pensado em escrever, já que não era possível falar, letras costumavam ser mais certeiras que a própria voz. Aliás, não era boa no jogo do diálogo, sentia-se perdedora sempre que falava demais. E ele tinha essa incrível capacidade de escutar tudo que tinha a ser dito. Ela não suportava sua habilidade. Que a interrompesse, ou a lembrasse do combinado, mas quando via já era tarde, as palavras haviam denunciado as letras cravadas no peito. Todas impregnadas e se debatendo naquele pequeno espaço, querendo livrar-se do bloqueio imposto pelos lábios. Sua mente era a grande culpada. Porque tinha de dizer? Porque deveria fazê-lo saber daquilo que não queria perceber? Era burrice, era muita burrice botar tudo em jogo a troco da decepção de ouvir o que não gostaria. E as chances disso acontecer eram enormes, pois sentia-se fraca e indefesa frente a ele, a admiração a encolhia. E esse sentimento de impotência só era rompido quando se abrigava em seus braços, e sabia que ele a tinha por inteiro e que assim a queria.

Pois ele chegou. Os olhos se cruzaram antes do primeiro passo em sua direção. Foi como mágica, ao vê-lo todas as palavras saltaram em seus lábios e as barreiras e bloqueios desfaziam-se, a cada passo o calor de seu corpo parecia atravessar as emoções, embaralhar a mente e explodir no peito.

Era ele. Ele. Ele.

Ele ainda estava em pé próximo à mesa quando a ouviu.

- eu te amo.
- como?
- eu te amo e não agüento mais isso. eu não funciono como você e não consigo ficar quieta diante desse sentimento que parece romper minha sensatez e destruir a minha tão prezada racionalidade em busca da aceitação em palavras que já tive em toques e olhares. Não, não. chega de tentar entender as suas verdade e aceitar seus termos enquanto me acabo buscando as respostas de minhas dúvidas quanto a esse amor maior que tudo. Chega, chega. eu te amo.

Do modo como a ouviu, ainda perplexo, virou-se e a deixou. Enquanto caminhava se arrependeu de ter ido até lá, sabia que não poderia confiar em suas palavras e que os tratos feitos, ao seu ver, eram meras desculpas para a reunião e desfecho da cena feliz em sua mente. Seus sonhos utópicos. Percebeu que o grande erro foi ter aceitado conversar sobre o assunto encerrado, pois da última vez ela prometera deixá-lo definitivamente em paz, e assim deveria ter sido feito. Fazia um ano que o amor havia acabado, assim como tudo o que havia entre os dois e o tempo se encarregara de banir da mente dele, mas não do coração dela.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

da prática da imaginação

Via-se perdida num abismo de idéias e possibilidades, sem saber qual seria seu próximo passo e se preferiria arriscar a frente ou consertar o atrás. Vagando na beira de um dos lados da consciência, não arriscava atravessar a ponte, o outro lado que esperasse, teria de desatar nós e remendar cordas antes do salto.

Começou o dia pensando em procurá-lo, desistiu. Não sabia de que modo tocaria a campainha e diria “oi, não sei viver sem você”. Mesmo dita em frente ao espelho do banheiro, a frase parecia um tanto quanto assustadora, e se a intenção era, de uma vez por todas, liberar seus sentimentos, que eles não viessem dessa maneira, como tigres famintos exigindo do domador o domador.

Sabia que se pensasse demais ignoraria o resultado do processo de revisão da sua vida. No momento, bastava seguir o rumo já traçado tantas vezes que a levava à sua porta, à campainha, a ele.

oi, desculpa, eu sei que não deveria ter vindo, que me avisou sobre o tempo e sua vontade de ter-lo, mas é que acho isso por demais egoísta e nunca tive ninguém que me freasse como você fazia quando eu cismava em colocar minha cara a tapa. você tem seu tempo e mesmo assim continua utilizando todo o meu, e enquanto eu passo meus dias tentando te dar seus minutos, acabo com minhas horas de paz. porque sem você eu não tenho paz. não, espera, não faz essa cara. não tenha dó de mim. brigue, grite, bata a porta na minha cara e diga que me odeia. não, não diga. mas é que eu achei que tinha representado alguma coisa, digo, na sua vida, não representado sentimentos, só um papel fundamental na história do nós dois. como? claro que houve, você sempre foi meu par de noites e danças, dos dias e confidências e sorrisos. e apesar dessa sua calma aparente, me faça entender que seu coração bate tão forte quanto o meu e que nesse exato momento sua cabeça se perde em minhas palavras enquanto procura respostas nos meu olhar. pois foi assim que você explicou seu amor, eu sei que nunca foi de gestos e palavras, mas todo aquele brilho no seus olhos fazia com que eu me sentisse especial e bastava o toque de suas mãos em minha cintura para que eu decifrasse seus desejos. enfim, continuo desejando suas mãos e seus toques, sem sua textura exata me perco em outras ciladas, e esqueço que da minha vida fodida só quero me lembrar de você e me perder em você e errar repetidas vezes com você. que não tenha sido em vão o tempo passado e as atuais palavras desperdiçadas, me abraça e nos teus braços me acho. teu coração bate, olha nos meus olhos: você sempre me teve tem terá, me queira de volta.

As frases foram decoradas e as situações analisadas do modo mais pessimista possível. Retocou o batom em frente ao espelho, buscou as chaves do carro e saiu de casa. Estava chovendo, mas nada a impediria de recitar o monólogo ensaiado.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Tempos

E apesar do que havia dito, tudo o que restou em sua mente foi aquela frase:

- vá e me esqueça.

De que maneira o amor se transforma em aversão? O começo, o meio, tudo foi diferente. E, agora, no final. Bom, foi o fim. Da mesma maneira como deixou o quarto, chegou ao portão. Os cabelos caindo sobre o rosto manchado de lágrimas. Alí parada, resolveu sentar nas escadas, para se despedir do passado que seria obrigada a esquecer. Seu vestido vermelho escorria pelos degraus, e os pés descalços arrematavam a cena.

Foi assim que ele a encontrou. No minuto em que vira a porta fechar, arrependerá-se do já dito.

- fique.

A voz veio como pedra. A atingiu. A dor momentânea, seguida de alívio. Mas naqueles segundos, com a tristeza em seus olhos e os pés no chão, decidiu que após o erro, nada voltaria a ser como o passado. E que não valeria rejuntar os cacos para o futuro, o resultado final não a satisfaria.

Levantou, sorriu e caminhou até o portão. Adeus.

Tudo o que ele viu foi um rastro vermelho e, depois … não houve depois.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Frohes altes Jahr

As voltas na roda gigante, passeios noturnos pelo Sena e a particular solidão em meio a multidão de turistas ficou para trás. Estava de volta, a caminho do frio que insistia em não deixar o ar da casa aquecida. Mas como nem tudo é simples, e as situações se desenham de forma a te deixar cada vez mais encrencada, acabou a bateria do meu celular, eram 23h, nevava e eu não sabia o número de casa. Eu estava ferrada.

Por sorte, existem romenos bondosos no mundo. Esse povo cigano sabe o que é passar por situações “difíceis” e, felizmente, tem celulares. Liga pra amiga, pega o telefone da sua casa, pensa dez vezes nas malditas frases que você vai dizer em alemão pra alguém que estava dormindo até você ligar enchendo o saco, e pede carona.

E, então, eu agradeci os amigos (benditos sejam os romenos), e fiquei lá, sozinha, debaixo de neve esperando a carona. Mas, duro mesmo foi entrar no carro e não ter o que dizer, ou, não querer. Dizer. Voltar.

Bom, chegamos ao ponto, enfim. O fim. O importante é que no dia seguinte seria véspera de ano novo, 2006. Eu estava bem animada, não é sempre que se tem a oportunidade de vivenciar um autêntico reveillon alemão, eu tinha escolhido passar com eles, que ficaram bem felizes com o meu interesse. A festa seria na casa de amigos, que eu, particularmente, gostava bastante, um casal simpático com um filho de sete anos que me achava a rainha do futebol. Não se enganem, era só por eu ser brasileira e conseguir chutar a bola em linha reta.

Ninguém usava branco, é, eles não são muito supersticiosos. Durante a semana, também não vi programas de culinária oferecendo mil receitas de lentilha, sugestão de cores e seus significados para a virada, muito menos pais de santo jogando orixá (?) e prevendo o futuro das celebridades. Na ceia tínhamos frutos do mar. É, na salada, no prato principal, nos petiscos, a variação era o molho. Eu não reclamei, adoro comida em geral. Mas, enquanto brasileiros comem coisas quentes e gordurosas aos 30 graus na praia, estavam lá eles, comendo peixinhos enquanto nevava. Bacana, sabe.

Bom, eu, como sempre, comi, conversei, e brinquei de lego com as crianças. E, nem como sempre, fiz caipirinhas e embebedei todo mundo! Nas exatas doze badaladas é assim que funciona: vai todo mundo pra porta de casa (do lado de fora, minha gente), estoura champagne e brinda com os vizinhos. É, exatamente, com os vizinhos. Uma coisa meio paz mundial, confraternização com os membros da rua, saca?

Então entramos de volta na casa, porque nem rola ficar passando frio de roupa bonita embaixo de neve (como podem perceber eu não consegui estabelecer uma relação amistosa com a neve, nunca). Mais uma horinha brincando de lego, as crianças começam a ficar chatas e fazer birras. Hora de voltar para casa e dormir.

No meu quarto, sozinha, em meio a lembranças, planos e expectativas, tive saudades, fiquei feliz pelas minhas realizações e sonhei com o passar do ano novo. A casa dormia, e em alguns meses dormiria em casa. Mas nesse momento, só pensava na viagem a Berlim do dia seguinte, e nos tantos benefícios que essa sofrida estadia me proporcionava: viagens, lego e peixes. O que mais eu poderia querer?

domingo, 16 de dezembro de 2007

Ever After

Como dizia Vinicius de Morais, “que seja infinito enquanto dure”, e eu acredito que dessa maneira funcionam os relacionamentos e o amor. Tudo é eterno, até acabar. Momentos ficam marcados para sempre, nunca nos deixando esquecer que algo existiu. Latentes em tudo o que você representa, te construíram.

No entanto, os finais felizes nem sempre me deixam feliz. O sofrimento, a amargura, a morte, são mais marcantes. E, ao invés de um sorriso no rosto, deixam um aperto no coração. Te fazem remoer os fatos e cenas, até lacear um pouco o nó na garganta. Você continua não entendendo, e não querendo aceitar, mas ele estará lá enquanto o sorriso já tiver abandonado o rosto dos outros.

A cada fim do para sempre fico imaginando até quando tudo durou. E penso que não há final de contos mais inteligente do que os alemães: “und wenn sie nicht gestorben sind, dann leben sie noch heute”.

Uma bala pra você que compreendeu.

Pois, então, seria a solução começar, sabendo que, quando acabar, durou?

A falta de duração deixaria falhas na construção?

E se, chegada a hora do para sempre, nada funcionasse por não haver precedentes?

E se o filme da minha vida estivesse fadado a um final feliz? Seria assim tão ruim?

Preferível a sofrimento, amargura e mortes.

Ou, talvez, eu esteja só confusa. E a mistura de vida real e fictícia seja inevitável nesse momento.

Mas, e se?





*ta, eu não seria tão má: “e se eles não morreram, vivem até hoje”, e isso deveria bastar.