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domingo, 7 de setembro de 2008

Um, dois, três e já!

- Eu planejei tanto minha viagem fora das paredes que a cidade impôs, que hoje tenho medo de passos falsos.


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Ser super-homem quando pequeno era tão mais fácil.
A diferença é que agora a capa de lençol precisa me fazer voar de verdade.
Longe dos passos falsos.

domingo, 24 de agosto de 2008

CarNavalha

Certamente ouviria tudo o que soubera das conversas alheias, nunca tinha experimentado a forma que trouxe à tona todas aquelas assustadoras formas. Certamente, sentiria mais completo depois de vivenciar as mãos no cabelo, o suor pelo corpo e um roteiro de improváveis caminhos que a língua traçava. Mordida e lambida. Arrepio com chupadas na nuca e uma febre difícil de controlar.

Tudo era parte de um enredo já batido, quem nunca o fez? E batia com força, quando se encontrava só. A vida não fazia tanto sentido, o sangue subia, procurou a vida em outras, a mão em objetos desconhecidos, o prazer nem sempre na boca, nem sempre em seu objeto. Morder ou olhar?

Depiladinha! Uma busca até o jorro. A intimidade se limita em cada gemido, a carne é quente e frita no colchão. É melhor parar, meu amor, se não vai inflamar! O selvagem está além da razão. 101 dias, o que é monótono agora? Escondo as chaves, sua fechadura é sempre um alívio. O que é brega dá mais prazer, encha a boca com o chulo, encha-a com o baixo, o suco. Uma refeição inteira.

É assim que se come. É assim que se fez quando aprende que o assustador é ser mais animal, menos gente. Mais parte do mundo, menos da sociedade. Meio ano de prazer. Lamba os dedos, sua boca tá suja. Qual é o seu nome, mesmo? Sai de cima e agora tira. Com tantos outros, é fácil achar um pedaço em cada corpo. O arrependimento bate quando acorda em mais uma cama estranha, sem sentido ou nexo. Mas desde quando a razão acompanha o sexo? O batuque desse samba não dorme, é eterno.


domingo, 10 de agosto de 2008

[...]


eu pensei em mil coisas antes de me arriscar nestes riscos. trouxe todo o peso pra cá, mas decidi que faria isso com a maior leveza que conseguisse. há tempos não sei qual a forma de minha letra. a tecnologia moldou meu costume de apenas mandar e-mails, mas aqui onde estou a tecnologia se mantém afastada. tão longe quanto os passos que nos separam, e acredite, é tão maior que meu pensamento.


antes que qualquer outro parágrafo passe por mim sem eu perceber, quero me desculpar pela demora. na verdade, quero me desculpar pelo silêncio. é até engraçado me desculpar por algo tão usual entre nós, mas eu me desculpo por pensar que você se engana quando me acha tão egoísta a ponto de sair assim, sem dizer nada.

então eu resolvi usar estas linhas pra esclarecer algumas coisas. contar outras. nesse tanto de terra, mar e céu, tornei sua lembrança mais próxima de mim. como se eu tentasse, mas não conseguisse pensar em mais ninguém pra começar dizendo o que digo para os que eu deixei. e peço para que compreenda. saí porque foi preciso, deixei tudo pra trás porque a vida me pediu.

outro dia, nas tantas linhas que tracei, cruzei com uma mexicana de olhos pequenos. sorriu pra mim ao dizer que às vezes é preciso estar longe para o lar fazer sentido de novo. ela me mostrava todos aqueles dentes, um sorriso largo que não foi embora junto à sua bicicleta. desde então, guardo tanta coisa do que vejo. uma rua, um olhar... os sorrisos.

o céu às vezes torna-se infindo no horizonte pra me fazer compreender os anos. e eu permaneço aqui, revirando as caixas que guardo em minha casa nova. aliás, você iria adorá-la. quando o sol bate de manhã na sala, eu lembro das vezes em que você aparecia de surpresa. preenchia os cômodos. enchia a varanda de girassóis.

ela não está tão completa com todos os seus toques, mas eu tento fazer algumas coisas como você. e a encho de memórias. afinal, as memórias não podem pertencer a mais ninguém. e eu deixo a estrada me levar. até eu ter a certeza de que o destino se lembre dos caminhos que tracei desde que você tenha se tornado apenas uma memória.




em anexo mando uma foto, um girassol e um abraço.
espero que cheguem inteiros.

domingo, 27 de julho de 2008

The same. But better.

Sabe, é muito ruim fazer as coisas sozinho. E desde que a casa tenha só minha presença e o som no último volume, eu me divirto. Mas não é a mesma coisa. Meu reflexo no espelho é a única forma humana que eu tenho visto e sujar os pés com a terra avermelhada do quintal não tem a mesma graça.

Ontem eu saí. Dei umas voltas com o meu irmão, que eu não via há algum tempo. Foi um bom momento. Eu sentei ao lado dele e de sua namorada enquanto a gente ouvia o som de uma banda ensaiada que tocava legal, até. Eu pensava e pensava e em vários momentos, aquela coisa me inspirou. Mas eu sabia que quando chegaria aqui e voltasse a dar o play no som e na minha solidão, as coisas piorariam.

Daí eu passei o dia todo me guardando para os prazeres efêmeros que eu tenho, quando estou sozinho. E acredite, nem andei pelado pelos cômodos dessa vez. Observei a tarde dançando comigo e me empolgando com as várias possibilidades de ter um dia bom. E o sol se foi. E eu olhei pro céu e lembrei daquele lance da lua ser a mesma aqui e lá, e aí, e em qualquer lugar.

Desci até a cozinha e abri aquela garrafa de vinho, guardada pra quando você viesse. Mas você dificilmente viria pra cá. Então, ela me fez companhia por algumas horas. Só algumas horas e eu estava olhando pro céu, novamente, procurando a lua onipresente que, veja você, se escondia essa noite.

Mesmo assim, coloquei na minha caixa de mp3 a música que move nossos pés enquanto estamos na sala, abraçados. Dei voltas no meu quarto e, sincronizado à ultima nota, a campainha tocou. Desci pra ver. Você sorria. Eu, já não era mais o mesmo.

Era novo.

domingo, 13 de julho de 2008

Old pictures

folhear as páginas
virtuais
me achar em nostalgia
lacunas
esfregar na tua cara
a crença desprendida
a vida desregrada
escorrida embaixo do balcão

dissimular o sorriso
frio
você carrega no gozo
santidade
o superior por ser inseguro
a manivela rodando o escasso
acaso

me achar em você
que há tanto não vejo
rostos, sorrisos
tento e não vejo
difusos e soltos
no chão da sala
desliza a dança
um batuque de boutique

tempo indeciso
dia sem precisão
eu saio e deixo
apenas
a janela aberta
entra chuva, molhamolhamolha
um desastre imperfeito
aquela frase na testa
o ponto do fim
na garganta seca
murmúrio sem nexo
uma volta inteira.

domingo, 29 de junho de 2008

Daquiali.

Tem dias em que tudo o que eu uso pra manter obscuro e pouco nítido, reverte no jogo que eu criei para satisfazer minhas poucas habilidades. E o abstrato em que me encontro tão confortável, cansa. Eu preciso do frívolo, pintar fora das linhas e sentir a vontade só por dividir uma mesa e alguns cigarros com aqueles que sabem o que é isso.

Eu olho para todos os cantos e os quadrados são metáforas daquilo que eu vejo preso em cada um. Cada um no seu quadrado. Nunca uma besteira fez tão sentido. Encho minha caixa de haicais que nunca serão lidos por ninguém. Porque só eu tenho a senha. Eu tenho a senha e a mania de guardar tudo o que eu faço só pra mim. Não é egoísmo, eu te digo. É besteira.

Em pouco eu percebo que há muito menos nas minhas necessidades básicas do cotidiano. Resumo tudo o que eu preciso em poucas pastas de música, e meu trabalho rende muito mais com um copo cheio de cafeína. Porque no fim das horas, eu sei que encontro o melhor. É sempre assim, o melhor por último, pra valer a pena.

Tem dias que são como hoje. O sol está lá fora e tudo seria demais. Mas aqui nessa sala meu estômago ameaça uma gastrite que beira o bizarro, e as conversas não são das melhores. Eu me empolgo agora pra despistar as promessas não cumpridas. Então, peço desculpa se eu me irrito fácil. Me desculpe se eu não compareço nos horários nem nos compromissos, é só que eu prefiro viver assim, sem muita dificuldade. Sem muitas regras ou vínculos fortes como antes.

Talvez porque eu saiba que eu encontro tudo no final. Um beijo. O seu.
Só o melhor. Lembra?


* foto de lilian splets

domingo, 15 de junho de 2008

Solto em tarde frívola

Eu comecei isso aqui como uma carta. Eu não sei porque, mas eu acho que se meu inconsciente achasse que isto pudesse ter um destinatário, as coisas seriam melhores.

Enfim. Eu separei os pontos porque eu não sei lidar muito bem com estas situações, e até agora eu penso e repenso em todas as atitudes que me deixa assim, sem conseguir pensar em uma atitude. Daí eu escrevo. Eu só sento aqui e escrevo. Eu poderia estar em uma prisão, subnutrido e tendo que escrever em algum pedaço de papel (?). Higiênico. Isso não te lembra alguma coisa? A mim sim. Mas por mais que a experiência pudesse trazer algum valor pra minha vida. Eu estou aqui. Degradando-a com cigarros e gorduras entre os dedos. Oi.

Então eu páro e tento pensar. E me torno redundante. E preso e calado. Porque pensar não é o esquema. Não agora. E me manter preso, eu já vi que de nada vai adiantar. Eu ando pelo corredor pulando os pisos bicolores. Pulo o preto e piso no branco. Branco... branco... brancobranco. Qualquer futilidade que me faça gastar umas horas. Brinco com a minha falta de responsabilidade em uma ingênua tarde que auxilia a minha personalidade forte de procrastinador crônico por excelência. Já vou! Já vou! Já vou!

Eu faço tudo esperar. Porque quando espero, espero demais. E quando espero demais, me decepciono. Sabe quanta coisa eu já deixei pra trás por esperar demais? Humpf. Nem eu sei, na verdade. Mas eu posso ter uma idéia. Eu posso ter uma idéia assim como as coisas que largo por aí em algum lugar que eu não faço idéia. Mas que, sim, eu tenho uma vaga idéia. De quantas foram. De qualquer forma. Não vem ao caso.

Acho que eu tô eufórico assim porque me bateu uma vontade de mudar o mundo. Haha. Uma historinha: "Era uma vez e eu tive a vontade de mudar o mundo". Poucos anos e um juízo menos. Que o pouco, claro. Tentei e vi que não era nada daquilo. Me deprimi e pronto. Acabou.

Mas não. Não. Eu tenho plenas condições de ao menos pensar que nada é tão mais fácil. As pessoas não são dobráveis, nem têm pensamentos privilegiados. Nem humildade o suficiente para tentar entender certas coisas. Nem vaidade menor que qualquer coisa que tenha um tamanho ridículo de pequeno. Nem idade que prove o quanto a infantilidade permeia em suas atitudes. E não, não sou melhor que ninguém e nem tô generalizando. O pouco por cento que existe e se exclui de tudo isso... é bem pouco. Talvez nem exista. Talvez isso deveria me fazer perder a fé em tudo.

Mas tudo bem. Acho que hoje não. Porque eu me sento ao lado da janela e a tarde de hoje me faz ver que há muito pra ser visto. E há muito pra ser escutado, sentido, cheirado. Bem brega assim mesmo. Acho que tô ficando velho. E em cada detalhe, eu até vejo coisas que valem a pena. Então tá. Tá tudo bem. Tá tudo jóia. Ou quase tudo. Porque a cadeira aqui do lado poderia estar preenchida por alguém. É, sabe? ALGUÉM.



Só porque hoje eu estou realmente a fim de prestar atenção nos detalhes.

domingo, 1 de junho de 2008

De onde vem a força

Era um mistério o que circundava as tentativas de entender por que se preocupava tanto com as coisas que deixava escorrer. Não muito mais complexo que isso, ele se referia às frases que iam debaixo de qualquer mesa de bar, nos bancos do ônibus, no reflexo da janela e em outro canto que pudesse esquecer o juízo enquanto usava o tempo livre das atenções para vagar em detalhes que a vida lhe trouxesse a tona.

E remoía-se com toda a turbulência de pensamentos insenssatos que ligavam a angústia de sentir a visceralidade que havia na vida das esquinas, para se enterrar entre as próprias concessões e fraquezas. Ultimamente, queixava-se dos dias tão estranhos, que mal conseguia pontuar as situações, os parágrafos, as letras de seu nome. Seu nome. Uma coisa tão ingênua que poderia lhe trazer tantas dúvidas. Um agá onde não devia e uma vida tão menos interessante quando a numerologia conseguia ser mais convincente que os acasos.


Pensava ser tolo às vezes. Pensava em não saber ao certo em que acreditar quando as frases formavam-se enquanto fixava o olhar inerte nas estações do ano, sem notar diferenças bruscas nas coisas. Eram as pessoas que mudavam. Eram as pessoas que o cabulavam a ponto de não querer mais contato com nenhum ser humano que confessasse guardar sua confiança.

E no zoom inconstante das coisas, usava um dia de outono, em que o sol se escondia, para se atirar na frente do computador e conversar com as luzes que refletiam a confiança perdida. Ah, seu amigo de bytes, de pixels. Tanto vazio em uma caixa tão promissora. Tanto vazio culpado pelas lembranças que não mais povoavam suas tardes. Uma coberta de dúvidas enquanto os retornos faziam-se tão concretos.

E quando uma vontade tola de mudar o mundo juntou-se com as idas e vindas de tantos retornos, viu-se em uma tarde fria de sol com aqueles que amava, se divertindo com o pouco que havia se tornado muito. Todo o valor de uma união que transboradava o cômodo, a casa. Sentiu-se feliz. O sorriso que escapava a cada vez que um detalhe era notado, a cada vez que as palavras ganhavam sentido novo e tudo fazia ser como era, só que melhor.


Decidiu descomplicar e teve os nós desfeitos, apenas cuidou para reforçar o laço que ligava a felicidade ao coração. Lembrou-se de que quando se diz saber algo de cor, é porque está no coração. By heart, como se diz em inglês. E longe de tudo o que pudesse preocupá-lo, decorou os sorrisos que fizeram tantos dias melhores. Para revivê-los a cada momento de fraqueza. Ser melhor com o que lhe fazia bem. Ser melhor com a força das junções.

domingo, 18 de maio de 2008

Confortável inércia

Eu deixo tudo como está. E repouso minha cabeça no leito das preocupações inexistentes. Não que a fé tenha me abandonado em dias tão insossos, mas o efeito "estar doente" tira algumas sensações que a vida traria sem a ajuda de qualquer outro artifício químico.

Então, as coisas apenas acontecem. E eu, além de me deixar levar, deixo também minha crítica e lucidez largadas em qualquer esquina, pra me agarrar a liberdade de viver a vida sem maiores interesses no que a impede de ser leve. E é em qualquer caminho de volta pra casa que encontro a importância de redescobrir certas coisas. Simples.

Um tanto mais, depois de passar dias sem saber distinguir os cheiros. Um tanto mais de toda certeza, quando tudo o que me afasta de tudo, traz o fim da falta de ar junto ao seu nome. A ausência de cada sorriso que costuma preencher meus dias torna o "tudo" tão mais doloroso. Torna os superlativos mais intensos. Dramáticos.

Até que as horas alcançam o auge do que faz o coração viver em desespero. E o sábado consegue solucionar todos os problemas quando seu olhar cruza a luz do sol. Uma mesa, depois de um filme ruim, com toda a diferença presente nos copos e a cumplicidade nos pensamentos e abraços.

Então, eu deixo tudo como está. Porque é inevitável não perceber que com você meus motivos pra viver acontecem. Na pele, no olhar, no abraço e no carinho escondido debaixo de um cobertor, eu encontro a simplicidade. E com os olhos fixados no teto, eu abro um largo sorriso. Simples. Assim. Eu deixo tudo como está.

domingo, 4 de maio de 2008

A um terço do fim

Espremido em mais de três, lancei-me na vontade de resolver tudo o que os meus post-its anunciavam, colados no computador. Dei tantas voltas, que até duvidariam da minha sanidade. Mas eu explico. Penso demais, minha querida.

Penso nas coisas que um dia irão virar pó, e tenho medo se as voltas que dou agora, se estenderão por mais anos. Quantos deles? Até que tudo se resolva, até que meus pés sejam livres pra tocar a terra de um jardim e todas essas preocupações estiverem tão longe dos meus pensamentos. E tão mais perto de todo o caos que aqui espero abandonar.

A vida parece a velha que me sorri com escárnio, no canto da bar, quando se mostra sozinha e infeliz, provando que o batom borrado foi uma frustração de um amor ou um destino cruel a qual escolheu. Ela me aponta. Ri. "Você vai terminar assim, queridinho".

Eu viro o copo, bebo tudo até minha garganta arder. A dor parece menos. Dez. Minutos. Ao menos. Assim me sinto vivo. O cigarro me trouxe todos os clichês em um só trago. Eu sei o que eu peço. Sentir entre minhas pernas aquilo que a distância levou. Ela.

Quando o quarto vazio me faz perceber os espaços em branco, que larguei entre a semana de provas e a ausência dos abraços, eu me atiro na cama. Grito seu nome. Sento. Levanto. Mais um trago. Mais um copo. Todas a lembranças em um olhar vago na parede. A conversa com a Chan Marshall entre os cobertores. Os post-its caem. Eu adormeço. O tempo lá fora corre. Nublado. Eu me calo. Agora em três. Pedaços.

domingo, 20 de abril de 2008

Don't leave the light on

Era naqueles dias estranhos que ele se refugiava na sensação que teve aquela vez. Era naqueles dias, que ela voltava a reinar os pensamentos mais simples, singelos e capazes de qualquer atitude regida pela emoção. Mas a razão também estava ali.

Ele se lembrava daquela vez. Tudo tão incerto, tudo tão certeiro. Os dois no carro, a música que ela intitulou deles. A música que ele tinha aceitado como um dos vários presentes que você ela lhe deu naquele fim de semana. Mas sabia que ela tinha feito muito mais. Tanto que nem imaginaria, nem saberia calcular ali, nem saberia durante tanto tempo. Tanto que nem sabe se hoje sabe plenamente.
Falava da intensidade. Foi tudo um começo, um fio que a incerteza plantou e depois juntou com tantos outros até que tudo parecece correto. Havia aparecido de surpresa, ouvido sua voz de um telefone público no centro da pracinha da cidade. Ouviu sua voz pela primeira vez. Sentiu o corpo trêmulo, a barriga cheia de "borboletas". E decorou cada pontuação das frases pra quando chegar na hora, mudar os planos e o cronograma.

Depois, foram tantas as voltas, tantas as canções, as conversas, o pouco espaço no carro pra expor a felicidade. Talvez ele nunca tenha falado a ela sobre os detalhes. Talvez não, mesmo depois de todo o tempo. Talvez. Ela então poderia nem saber do quanto sorria tão mais largo quando pôde ficar sozinho no hotel pra pensar em tudo. E também não soubesse dos carros que assistiu pela janela, do clima da cidade, do coração pulsando tão mais forte, tão mais novo. Era tudo novo, era o começo de algo que lhe dava a chance de viver um novo começo.

E, no fim, era tudo ela. Era o gosto dela ainda na boca, a cidade ao alcance dos dois e os hermanos no rádio. Os cabelos entre os dedos, o devedê já sem importância, porque o filme era tão menos interessante que seu olhar. Era o comentário sincero de como ela tinha um beijo bom e o dela dizendo que podia ouvir o pulsar do seu coração. E ele vibrava com toda aquela situação. Ele tentava se controlar, mas era impossível. Talvez nem desse mesmo pra disfarçar. Talvez, de novo, depois nem estivesse preocupado em disfarçar.

Então, voltava para a cena do carro. Todos os momentos, todas as mudanças em questão de poucas horas. a despedida que acarretaria em algo melhor. O caminho de casa tão mais leve, com o vento trazendo o novo e levando o gasto. E aquela sensação em que sempre se refugiava. Os cabelos, a estrada, as mensagens e a boca dormente. Com o gosto. Dela. Anunciando um sorriso. Fofoqueiro. Exibindo pra quem quisesse ver. Que tudo mudou. Pra melhor. Para as certezas.

Por eles dois. E a música.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Café com ela

Escute só, minha querida. Talvez tenha sido seus pulsos, sua forma como me passava o bilhete. Era uma viagem, mãos em mãos até a sua me entregar. Até seu toque chegar até mim, até nós dois nos resumirmos nessa mesa agora, com a única distância dos meus desabafos.

***

Nem todas as palavras servem para eu me expressar com clareza. Nem tudo o que eu boto nessa roda, é para ser claro. Nem as palavras. Tão pouco as palavras. Eu sei que aqui, eu consigo dividir tanta coisa, tão mais que qualquer melodia, tão mais que uma soma com resultado singular. Traga sua mão até aqui. Traga, ponha-a aqui no meu peito, eu deixo você sentir. É mais que sangue correndo, talvez mais que qualquer vida pulsando. É um jardim onde eu deixo você cuidar como quiser.

quem me olha assim, com certo desprezo, duvida de que possa ser assim. duvida da minha vontade de te colocar no papel em traços mais longos e delineados que qualquer obra. e eu deixo minha empolgação transgredir qualquer barreira. eu sublinho todas aqueles versos e te entrego, eu risco minha pele com agulha e tinta. eu deixo tudo claro, se é assim que você quer.

Cortando as ruas, todos os dias, eu já nem sei quantos passos moram nos mesmos caminhos. Já nem sei quantos passos moram na minha mania em calcular distâncias. Multiplico tudo por xis e jogo minhas apostas em qualquer fórmula absurda que seja capaz de achar uma equação cabível aqui. Uma equação que traduza nosso diálogo. Mas eu me canso. Me canso de tentar arrancar conforto de lugares inóspitos. Acabo por vomitar o que ficou entalado. Patético.

Deixa eu ver seu pulso. Eu só quero apertá-lo. Fazer você sentir como as coisas funcionam aqui. Ou talvez te mostrar como minha cabeça não funciona mais quando se têm pouco tempo pra tanta coisa. É ruim. Tá ruim. Mas acaba aqui. Eu chamo o garçom, deixa que eu pago a conta. Eu atravesso as mesas e te largo refletida no fundo da minha xícara, diluída com o resto do café. Porque o papo acabou e eu não sei mais te convencer da minha mudança, minha querida. Eu, apenas, não sei mais... querida inteligência.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Uma praça, uns fantasmas

Não pretendo me alongar, até porque, ontem eu pedi atenção para qualquer deus que estivesse me ouvindo. Eu sentei naquela mesma praça e, às 11 da noite, com meu maço e meu copo, fiz amizade com os fantasmas que passeavam por alí. Ontem, eu lembrei de cada detalhe daquela letra e a traduzi mentalmente, e a cantei repetidas vezes. Eu, meu maço e meu copo.

Descobri o sentido nas frases mais tolas, eu previ as situações mais infantis e nem assim consegui evitá-las. Eu estava longe, talvez eu precisasse estar longe. Assim como qualquer dono de melodia decorada conhece o valor disso. A vida não é filme, assim eu quebro todas as esperanças que um dia nós construímos sob essa razão, assim eu olho pro céu e me surpreendo com a falta de estrelas nessa cidade. Que nem minha é.

Hoje, alguém perguntou por minhas falas, eu disse que resolvi encerrá-las todas com um beijo no lugar do ponto final. Assim eu faço o mundo me entender melhor, assim eu recupero a paciência de todos os dedos que são necessários para conseguir chegar a um objetivo. As pessoas se machucam, as pessoas precisam de panos quentes, as pessoas precisam de descontos e uma mão pra acariciar antes de levar o tapa.

A voz rasgada das minhas cordas continuarão cantando até você entender em qual idioma eu falo, até todo meu vocabulário se esgotar na tentativa de te convencer da minha franqueza. Eu poderia te escrever uma carta, eu poderia compor uma música, eu poderia fazer minha cabeça latejar até eu lembrar de todas as frases que eu pensei e guardei enquanto estive ontem, na praça. Mas agora, eu prefiro acreditar que meu silêncio interrompido pela televisão do cômodo ao lado é apenas uma oração que eu faço. Uma oração suplicando pra que qualquer deus provido de ouvidos, os direcione a mim. Uma oração boba, desejando que os fantasmas possuam um aparelho de telefone móvel e algo tragável entre os dedos.


Meu amém [beijo]

domingo, 9 de março de 2008

Outside[r]

Coração adormece e a fumaça o envolve. Tudo tão difuso. Tudo tão nublado. Eu te assisto da janela. Agarro o medo de não poder respirar de novo, enquanto os acordes daquela música que nunca gravei pra você apunhalam meu peito. Devolvem a sanidade de um momento íntegro. Canto com minha voz rouca e guardo os resquícios da saliva seca. É tudo quando estamos longe, é tudo quando estamos perto demais. As estrofes me enganam, me fazem suplicar.

Lembra? Suas mãos nos meus cabelos, meu coração entre seus dentes. Escorre a intimidade. Os dedos que sabem de cor os caminhos do meu corpo. Toda a tinta e todas as cores. Ácido na tela, manchas em nós dois. A salvação em uma pincelada.

Lembra? Aqui já quase tudo falha, são as palavras esquecidas, um emaranhado de dúvidas e a imprecisão de um novo parágrafo. O vento que balança a cortina é minha última memória. O vento que balança a cortina, balança tudo aqui dentro. Espanta a fumaça, se revela em pixels na tela do meu computador.

As paredes de flores, o piso liso e gelado. A ordem já não me importa mais. Você sabe quantos pés dão daqui até o chão? Mil, dois, três, vinte e um? Você sabe quanto falta pra eu ter a coragem e dar um passo a frente? 12º andar. O anúncio que eu não vi. Talvez a falta de atenção, talvez as vistas cansadas e a pulsação imprecisa. Arritmia. Aqui a preocupação não me alcança, ou finjo que não a vejo. Vistas cansadas!

Lembra? Lembre-se de alguma coisa! Eu já quase não consigo mais te convencer das minhas verdades. É tudo tão singelo e forte. Não me cace mais com a violência do seu silêncio, ou me atormente com o modo em que segura seu cigarro de manhã. Eu me perco na fantasia de acreditar que você me conhece. Eu te assisto pela janela. Porque eu sempre me senti assim. Do outro lado. Do lado onde você nunca está.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Abrigos ocultos

Eu perco o folego rápido agora. Eu perco o fôlego por dois degraus, em toda a distância mínima dos seus avisos. Toda aquela distância que existe entre suas palavras e a minha consciência torta. Quase não ando falando. Quase não ando mais andando e com os olhos tão atentos ou menos cansados que meses atrás. Tropeço em vírgulas e mal percebo os pontos, acabo tocando sua campainha e aperto os dedos na esperança de você terminar minhas frases desconexas com sua gramática perfeita.

É quase tudo sempre igual. Repete e gira, volta pro mesmo lugar quando o espaço responsável pela divisão da realidade e o nonsense se confunde no espaço ocupado pelos pensamentos que não mostram tanta força quanto antes. E o nó está feito. E acontece que é assim que acontece.

Não sei mais fazer logoff de todo o caos que circunda meus dias. E quando menos espero, o sono age com violência e os olhos só abrem quando a quarta-feira decide ser molhada. E pinga em minha testa uma amostra da sua ousadia. Desperto pra carregar todas as falas e as páginas inteiras de qualquer história alheia que consiga preencher minhas viagens. E só assim reconheço a dor nas costas, só assim acho um culpado pelo peso todo.

Então eu busco entre todos os olhares que pegam carona comigo, todas as partes que releio das tais folhas, frente e verso, todos os viés dos cantos e todos os clichês nos cliques. E não por ser fraco, mas por ter certeza, acabo me confortando no romantismo daqueles olhos, nos noites de insônsia daquelas mãos, na reflexão daquele sorriso e no abraço apertado daqueles lábios. Assim o tédio não me alcança, assim eu agüento mais quarteirões e me contento com as possíveis calamidades que estão por vir.

Assim, eu me recupero de todo o fôlego que eu esqueço, propositalmente, na sua casa, quando te beijo antes de sair. E os degraus se fazem menos.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

No pó do instante

Das obrigações, esqueço a metade no caminho dos afazeres. Peço piedosamente que me perdoe pelas roupas molhadas na cama e por gemer um pouco mais alto do que as paredes conseguem suportar. A aflição do suor que desce pela testa me lembra de que os dias têm ultrapassado minha capacidade e paciência. Deleto o passado, arquivo as lembranças em documentos de texto no meu e-mail de gigas. Poderoso sou quando vejo que passei dias sem me desconcentrar dos abrigos cravados no compasso das letras companheiras, tão fiéis no caminho da volta. Eu tenho tudo planejado, uma agenda mental nunca tão precisa. Escolho os dias para sair de casa e a chuva tem sua melhor forma na certeira decisão de cair nas horas em que me encontro desprotegido. Uma agenda melhor que a minha.

Sorrio pela ironia e pelos amores que desviam o caminho e os olhares enquanto traço e, marco, passos ágeis e cuidadosos com as poças d'água. Sujeira no all star, arranha-céus tão mais distantes que minha criatividade, acidez no chão e todos aqueles pedintes com bonés para o alto e olhares suplicantes. No mofo eu me econtro aos poucos, corro por linhas, poeira e caos nos livros prediletos em qualquer estante barata de um sebo caro. Títulos bizarros em jornais usados pra embrulhar as batatas. Batatas em consequência da fome, sem o jornal pra embrulhar, empacoto o estômago. Subo e desço, hoje não penso mais na música escolhida pra aliviar a vida quando os pés pedirem arrego.

Desértica é a rua às 3h00 da tarde, quando a noite ainda nem se pronunciou. Mas duvido de cada segundo, não serão capazes de mudar o estado atual. A casa vazia só não é maior porque os prazeres solitários fazem valer a pena qualquer possibilidade de uma conversa com a saudade. Poucas coisas não contradizem a esperança de manter o equilíbrio. Lerdeza marca o agir e o alarme soa ruas abaixo.

No fim, é tudo assim. Incertezas meterológicas, distâncias ditadoras, vazio injustificável, bananas podres na fruteira e umidade nos lençóis. Qualquer desconexão com a realidade torna-se parte da ficção desenhada pelo meu cotidiano.

Às vezes o abraço, às vezes o mantenho porta afora. Na chuva.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

No ponto da sinceridade [ponto]

Eu não sei o que me faz estar aqui na frente agora, dizendo tudo o que vou dizer e ainda acertando as teclas desse teclado sem cometer muito erros. Eu agora queria ter um gravador mental, que registrasse todos os pensamentos que tive nas últimas horas, e poder dizer aqui, sem alterar qualquer vírgula ou ponto, tudo o que foi hoje.

Certa agonia chegou até mim, é verdade. Eu não poderia encontrar em outros olhos, que olhei fixamente, todo o carinho e amor que aparecem quando olho os olhos seus, mas encontrei verdade em cada olhar, cada música que dancei hoje e cada abraço que dei. Porque todos sabem em como adoro abraços quando fico meio alto.

Na verdade, não posso mentir dizendo que já estou melhor, não estou. Tudo embaralha e me surpreendo por escrever essas palavras. Meu primeiro texto não sóbrio, isso deve valer alguma coisa.

Deve valer porque fico mais verdadeiro, isso é fato, e não consigo esquecer, por enquanto, quantas vezes pude dividir a alegria que eu sinto com cada um que esteve em casa hoje. Nunca pensei que uma festa traria tantas coisas.

E trouxe, trouxe meus amigos queridos que hoje penso que só Deus mesmo para colocá-los no meu caminho. Vou contar: eu vivo de incerteza, e nela está meu curso. Eu não sei se quero o jornalismo pra toda vida, sendo que qualquer relação que tenho com a tinta e o as artes visuais, me seduzem muito mais. Eu não consigo passar horas matutando sobre coisas que eu não consigo idealizar direito. Tenho apenas poucas certezas, delas, meu amor e meus amigos fazem parte.

Eu senti falta sim, senti falta do abraço e do beijo, das bochechas e do corpo deslizando sobre minhas mãos enquanto dançava, mas a mantive a todo tempo num lugar que ninguém pode tocar, bem secreto, escondida no centro de um coração sonhador. Mas é injusto não lembrar de todos os olhares que cruzaram os meus e fizeram desse domingo algo valioso. Amizade.

Sinto a amizade a cada vez que uma frase sai sinceramente, a cada verso dos Beatles que tocou no som, a cada cigarro compartilhado, a cada pulo no meio da minha garagem, que se transformou em pista, a cada abraço, alívio, favor. Tudo, tudo, tudo. Não precisaria mudar nada, tudo veio em hora certa, mesmo que a saudade pudesse ser aliviada em cada palavrinha soada no celular pelos poucos minutos.

Eu me desculpo, porque tenho vício nisso, por qualquer erro aqui cometido. Digo que não estou sóbrio o suficiente pra reconhecer certas coisas e muito menos meus erros, ainda mais gramaticais. Mas por toda a semana que se desenrolou, agradeço até o autor do livro que amenizou a chatisse das manhãs de trem e metrô. Obrigado! Nunca consigo terminar algo assim, sem um obrigado.

Nunca, em toda minha vida, poderia premeditar coisas tão surreais que aconteceram nesses últimos dias. E é nessa falta de sobriedade, que me despeço. Mas cheio da sinceridade, que um dia achei que pudesse faltar aqui.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Nada que caiba aqui

Poderia até falar do silêncio e de como ele tem ocupado os espaços e os desespaços do meu cotidiano. Ultimamente ando tão lacônico, que até meus botões parecem me questionar de tanta falta de qualquer sussurro. Acho até que encontrei de vez a verdade, encrustada na estagnação dos ruídos.

Mas ele (o silêncio) me diz tantas coisas, que prefiro não agir como os tais botões, e por segurança qualquer, fico assim, sem ter muito a questionar. Carrego todas aquelas malas no trem. Voltar pra casa tem sido sido raro nestas semanas. A promessa de tudo o que há de vir é tão grande que nem cabe nos meus pensamentos. O silêncio retorna, mas o coração acelera com a ansiedade causada por pensar na possibilidade de vê-la. Eu poderia sentetizar nós dois em poucas palavras. E eu até sei resumir, ainda mais nestas condições. Ela, sem dúvida, é uma destas que chamo de mulheres da minha vida. Tirando minha mãe e minha amada, acho que ela ocupa o lugar mais próximo, e um dos mais espaçosos nesse meu coração de sonhador.

Não consigo nem esconder o contentamento e a ansiedade que me invadem, só de saber que a verei. E apesar da demora, tudo chega em seu tempo. Ela vem com o sorriso discreto que sempre tem, e o jeito de menina eterna. Eu finalmente a entrego o abraço, que há tanto tempo tenho guardado. Nada é diferente. O tempo passa, mas a sintonia ainda é tão grande, como nas vezes em que vivíamos coisas simultaneamente, em lugares diferentes e descobríamos depois a coincidência dos fatos. Apesar de surreal, causava um contentamento estrondoso.

E tudo isso me deixava feliz. Me deixa feliz, mesmo quando faz com que o silêncio impere sobre nós. E, ao contrário do desconfortável, eu me sinto bem, só de ouvir sua respiração. Quase sempre fazemos as mesmas coisas, e incrível como nada torna-se batido. Temos na simplicidade dos momentos, as construções mais maravilhosas e valiosas que carrego comigo. Às vezes pouco falamos de nossas vidas, mas sabemos sempre de tudo. Sonhamos coisas juntos, e também esperamos o dia em que conheceremos as respectivas garotas.

Quando ela vai, a noite já se fez há algumas horas. Todo tempo ainda parece pouco quando nos juntamos, mas a leveza posterior é indescritível. No fim, todas as promessas penduradas nos post-its do quarto ainda berram por atenção, mas não as trocaria pela tarde que tive. Têm sido engraçados os dias de engasgo e a falta de eloqüência que tenho quando tento escrever. Nada parece ser tão justo como as coisas são. Mas acredito que nem em meu melhor estado, saberia descrever o que ela é pra mim.

Incompleto e ainda cheio de palavras a serem ditas, eu encerro. Mas ainda carrego a vontade de poder passar mais um tempo com ela, falando sobre o nada, dividindo risadas e sonhos, curtindo nosso silêncio.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Go to bed, World!

Bem sabia da certeza que tinha, mas a certezas acontecem quando as pequenas coisas as chamam em qualquer canto dessa cidade cheia de novidades. Eu tive a maior certeza de que tudo aumentava e que o caminho era sim para o certo e não para qualquer outro lugar, quando avistamos aqui a primeira noite de estrelas estampadas no céu.

Surpresa foi a dela ao vê-las ali piscando, na noite de terça-feira. A metrópole só lhe havia trazido noites de céu com cor homogênea e indefinida, estranha o suficiente para sempre encobrir os astros reluzentes. E nós apenas caminhávamos na madrugada, fazendo de qualquer ponto interessante, ou não, da rua, como nosso espaço de liberdade. Não tinha mais a saudade, não tinha o aperto, não tinha nervosismo ou qualquer outra coisa que desgaste o rumo de seus antônimos.

De tanto querer dizer o quanto é verdade, eu, sempre entregue a essas emoções da situação, tento transcrever mais uma vez o que foi ali jurado. Raramente duvidamos das jornadas que o destino ainda vai nos agendar, nem parecemos temer o que o futuro reserva. Tudo bem... às vezes. Mas perante àqueles olhos e sorriso, eu quase não tenho chão ou força maior que me faça acreditar em avesso de otimismos. Coisa nossa, mas que quase torna-se pública de tão explícita.

O ponto tenta me convencer de que os horários são maiores. Tenho dado tantas voltas e soltado tantas frases que me perco nesses dias tão turbulentos. Quando muito, me destino a confissões tolas para um computador, mas as dúvidas se esvaem quando lanço frases onde digo que as terças-feiras têm minha preferência. Daquelas onde o céu nos ilumina com as estrelas e a cidade inteira reflete, em seu sorriso, nossa condição de donos do mundo. O nosso.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Lacrado

04:23. As coisas são sempre assim. Basta ouvir aquela música que combina com tudo o que eu sou agora, às 04:23, pra desembestar a ansiedade que circula por todas as partes desse amontoado de carne e osso que eu virei na madrugada.

Abro tudo o que esse amigo de placas e sistemas me permite pra socializar com os amigos que a vida trouxe, virtualmente ou não. O "sempre" sempre volta, ninguém compartilha a insônia comigo. Acordar alheios seria trabalhoso demais, confesso que agarraria qualquer adicionado em alguma dessas tecnologias. Inúteis no momento, diga-se de passagem. Me refiro às tecnologias, digo para esclarecer.

Aqui tá tudo muito pequeno. A janela é passagem ilusória em que eu tenho vontade de me atirar e engolir tudo lá fora. Mas não. Surrealismo na hora errada. Hábito adotado momentâneamente pelo nervosismo da busca por palavras sólidas que reconstruam o solo perdido. Ou seja, dor na ponta dos dedos, unhas roídas. Patético.

O tremor dos olhos investigam cada canto do cômodo. Muito barulho. Os ouvidos quase pedem arrego a tanta subversão de sons. Bebo tudo o que tenho, pena não ter o que preciso pra suprir a inquietação. Os ícones piscam, parecem ser a única coisa "viva" a me fazer companhia. Queria um quarto selado.

O estalo ajuda a pungente dor na nuca trazer alívio. Efêmero. A postura é sempre citada nas conversas. Bendita. O sono desregrado também é tópico preferido. Desprezível. O vento invasor causa arrepio na espinha. Apreensão. O som alto acarreta na perda de audição. O quê?! Ganha-se a timidez.

Conforme a síndrome autoritária dos ponteiros revive o paradoxo do tudo mais distante e próximo, o arquejo dura mais que o esperado e a persistência em dividir o momento com alguém morre aos poucos, dentes escolhem outro alvo. Possuo uma compilação de tampas de caneta. Olhar ao céu. Agora mais claro. Saudade mais ampla que toda essa extensão.

Engasgo. Desistir é opção válida. O botão que tudo apaga cumpre sua função e o grito aqui perde a força. Já deitado, eu só espero me livrar de todo o barulho insistente. Muito barulho. Mesmo sabendo que dentro do quarto, nem mesmo um sussurro tenha se pronunciado.