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domingo, 13 de julho de 2008

Um parque de diversões da cabeça*

Quando abriu os olhos percebeu que estava perdida. Não sabia o que fazer nem quem ela era. Os dedos não tinham digitais. Nas mãos as linhas da vida e da morte sumiram. Agora somente a ausência de qualquer traço de identificação.

Olhou ao redor e viu que estava em um parque de diversões, mas os brinquedos estavam parados, desligados. O parque estava perdendo seus traços. A diversão já não estava ali, a energia fora dissipada.

No carrossel os cavalos tinham a crina baixa e eram incrivelmente pequenos, a montanha-russa parecia no máximo um montinho de trilhos e a roda que devia ser gigante estava diminuída por não rodar.

Nos carrinhos de guloseimas não foi diferente. O milho não se transformou em pipoca, o açúcar que não virou algodão-doce foi embora com o vento e do amor só restou uma maçã velha.

Ela continuou andando e viu um pardal. Os olhos dele estavam paralisados e o máximo que conseguia fazer era andar, porque tinha esquecido qual a utilidade das asas. Dava uns passinhos desajeitados e caia. Não sabia que era um pássaro.

Foi conseguindo identificar as coisas ao seu redor, mas ela mesma continuava um mistério, não sabia nem sua feição. Nada a conectava àquele mundo. Não entendia o que estava acontecendo.

Saiu do parque, olhou para rua e viu dezenas de carros vazios. Eles inspiravam o abandono de uma solidão desejada. Talvez ela tivesse feito por onde merecer um mundo só seu, para brincar de ser uma personificação divina. Começou a ficar tonta e resolveu voltar ao lugar de origem.

Sentou em um banco e quando abriu os olhos estava em parque de diversões e os brinquedos estavam parados. Em cima do banco tinha um caderno e uma caneta. Olhou para o branco da folha como quem enxerga uma salvação e começou a escrever:

“Quando abriu os olhos percebeu que estava perdida. Não sabia o que fazer nem quem ela era. Os dedos não tinham digitais. Nas mãos as linhas da vida e da morte sumiram. Agora somente a ausência de qualquer traço de identificação.”

Um ciclo infinito em achar e perder. Sonhar e acordar. Ser e esquecer.


*Título do livro de Lawrence Ferlinghetti
*Foto de Darlan Raymundo

all in


Parei diante daquelas cartas, uma aposta tentadora, o mistério atraí quando faz surgir e espanta a curiosidade. Uma mistura de medo em cartas baixas em uma mesa com uma toalha verde. Formaríamos pares ou trincas, seriamos diferentes, teríamos todos o mesmo nipe, não importava a combinação, no fim ganharia aquele que fizesse os outros saírem, convincente o suficiente para blefar em segurança.

A convicção dele era um trunfo, mesmo em jogos nos quais não tivesse aptidão nenhuma, fazia dos sorrisos uma carapuça e tentava, até esquecer qual era de fato a finalidade. Mas naquela mesa, queria ganhar, queria correr os riscos. Suas apostas eram tentadoras e convictas. E os outros iam em impulso. Eu fiquei ali, enfrentando aqueles olhos, que já foram meus e agora procuravam enganar os outros. Alguém colocou aquela música que costumávamos cantar, tudo se repetindo, como nos tempos em que nos encontraríamos. Dessa vez eu controlei meu impulso para te ter dentro dos meus olhos, esperando o meu próximo passo. Você esperava os meus passos, como se naquele jogo inteiro, só os meus importassem. Fugi. Sai do jogo e todos desceram. Sabia, de olhar pra você: era minha hora de me retirar. Você me contou com os olhos sorrindo que ganharia.

Na última vez que discutimos a luz do sol tímido, te falei que estava cansada de te deixar ganhar, que era hora de mudar as coisas e diante de mim, você seria outra vez um sonho.

O que não sabíamos é que nesse jogo ganha quem sonha. Foi assim que desatei todos os nós do meu passado, mesmo que eles parecessem insignificantes, reapareceriam para lembrar qualquer coisa que é melhor guardada. Ainda havia medo de apostar, foi nesse momento que você encostou no meu ombro, eu olhei pra cima e dentro dos seus olhos um convite. Deixamos todos pensando em nipes, cartas, apostas. Ao lado da lua suas mãos encontraram as minhas, diantes um do outro, formamos um par, por fim.


foto:
http://www.flickr.com/photos/ianhickman

Old pictures

folhear as páginas
virtuais
me achar em nostalgia
lacunas
esfregar na tua cara
a crença desprendida
a vida desregrada
escorrida embaixo do balcão

dissimular o sorriso
frio
você carrega no gozo
santidade
o superior por ser inseguro
a manivela rodando o escasso
acaso

me achar em você
que há tanto não vejo
rostos, sorrisos
tento e não vejo
difusos e soltos
no chão da sala
desliza a dança
um batuque de boutique

tempo indeciso
dia sem precisão
eu saio e deixo
apenas
a janela aberta
entra chuva, molhamolhamolha
um desastre imperfeito
aquela frase na testa
o ponto do fim
na garganta seca
murmúrio sem nexo
uma volta inteira.

Você me fez acreditar que a imaginação se fortaleceria, que em algum espaço de tempo nossa vida se tornaria aquilo que a mente sonhou. Suas palavras me iludiram, mas não sou menos culpada por tê-las ouvido. Descarto-as nesse momento, junto com todo o amor que senti por você, junto com minhas esperanças, junto com meus planos e os possíveis caminhos que trilharia ao seu lado. Da minha vida, você não faz mais parte. O adeus é tão doloroso quanto a certeza de nunca mais te ver.

E desse modo talvez eu consiga acreditar que foi tudo um rompimento. Que sua vida segue, solitária porém real. Entre os fantasmas que atormentam meus sonhos, você não poderá fazer parte, pois seus passos continuam sendo impressos, pois você passa. Durante a noite, me apegarei ao vazio que criei, e das suas mãos geladas, só me restará o frio.


Adeus, meu amor, descanse em paz.

Só.


O que me deixa triste eu não consigo explicar agora. Fantasmas rondam minha cama numa falsa companhia. Eu não sei o que está errado com meu coração, não sei o que eu fiz... A hora de cair ainda não chegou, mas já rastejo febril entre espíritos. E morro só.

Estou num túnel que bifurca em vários outros túneis destinados à escuridão. O caminho a percorrer não importa, o destino que desenhar me será cruel. Eu não sei o que está errado com meu coração. Quando descobrir, ele já terá partido. Já terei partido. O escuro é sólido e tem um gosto amargo, invade minha boca, entra pelos meus ouvidos e dentro dos meus olhos - que aberto ou fechados, já não são mais necessários.

Vozes que não consigo identificar de onde vêm e o que dizem ecoam em toda ausência. Ouço algumas teclas de piano, fazendo uma canção lenta e dolorida, reconhecível. Mas eu sei que é só coisa da minha cabeça. Toda esperança evapora de meus poros, me deixando deitado em minha cama com meus espíritos fazendo ronda. E morro só.

domingo, 29 de junho de 2008

26ª Edição.

Na base do improvável improviso.
1, 2, 3.
Vai.

Dos pés a cabeça



No primeiro dia do ano acordou com tudo igual ao seu redor, as paredes desbotadas, a rachadura do teto e na cama a mesma mulher há quatro anos. Tudo morno, cinza e quase morto.

A parte mais animada do corpo eram os pés por causa das frieiras, que agora pareciam ter mais vida do que ele mesmo. Coçavam sem parar e despertavam o resto do corpo. Guerreiras.

Elas venceram. Levantou-se e foi ver a corrida na Paulista, não tinha o que fazer e nem pressa com nada. Caminhou e elas se acalmaram com o suor e a umidade, mas ele não.

Lá todos corriam para vencer e chegar a algum lugar. Ele era um intruso. Não corria e queria dormir. Pensou em voltar, mas essa hipótese causou uma vontade ridícula de correr.

As frieiras agora dominavam os pés, que cederam com animosidade para correr, mas ele não permitiu, apenas andou um pouco mais rápido. Não tinha para onde ir e nem queria voltar.

Foi caminhando em um ritmo mais acelerado e ficando cada vez mais distante das paredes do apartamento e da rachadura no teto. Longe da sensação de toda manhã. Acordar e sentir o peso de ser o que os outros não esperavam. Mentiu por tanto tempo que até acreditou que queria ser alguém na vida de alguém.

Ele não queria a estranha que acordava ao seu lado há quatro anos. Nunca quis nada na vida, nem mesmo a vida. Estava ali porque nasceu e só. Não teve opção e se talvez tivesse escolheria a mais cômoda.

Percebeu que estava correndo. Parou. Olhou ao redor e se deu conta que estava cansado. Entrou em uma farmácia e saiu com uma sacolinha nas mãos.

Voltou para casa. A mulher estava na frente da televisão bocejando e disse – “Fiz café”, ele balançou a cabeça e foi para o quarto. Tirou o sapato e olhou para eles e depois elas.

Malditas. Abriu a sacola, pegou a pomada e leu a bula “Indicado para pé de atleta e infecções cutâneas”. Não podia ter pés que o fizessem um atleta e uma louca vontade de correr para longe de tudo o que era cômodo e confortável.

Os pés se conformaram, assim como ele. Nunca mais esboçaram nenhum ímpeto aventureiro de sair por aí. Só ficou a lembrança de como quase perdeu o nada que era sua vida.



Imagem: Da cabeça aos pés - Por Paula M. Leite do Canto - 1999