Hoje o dia está coberto de nuvens e isso me deixa mais sonolento que o normal. Eu lembro de dias assim, quando estamos deitados no colchão que colocamos, propositalmente, na sala e alí ficamos debaixo do edredon assistindo programas da tarde e fazendo todos os planos que esperamos concretizar um dia.
Hoje o dia está coberto de nuvens e é diferente porque eu não estou no seu apartamento e não há edredon, programas, risos, abraços, beijos nem nada a mais. É sempre inevitavel eu me perguntar o por que de toda essa distância. Acho que foi por culpa dela que aprendi o que é morrer aos pouquinhos.
Sabe, os dias tem sido meio insossos, tão sem graça quanto àquela vez que fizemos macarrão e esquecemos de colocar o sal. Um dia eu espero ter uma casa com um quintal para podermos plantar alguns tempeiros. E nesse dia não haverá mais distância e não precisaremos mais nos preocupar com a falta de sal ou qualquer coisa que tempere nossa comida, teríamos tudo alí. Também não precisarei mais me preocupar em usar minha mente para me refugiar pensando na sua imagem. Eu te verei todos os dias, e sinceramente, me sinto tão bem assim.
Hoje eu saí, mesmo com toda essa neblina que encobre a cidade e todo esse vazio que você deixa quando pega o ônibus de sexta. Na feirinha da cidade vizinha, comprei umas coisinhas que achei que você gostaria. Não é nada demais. Faço isso porque, também, é impossível andar sem pensar em você, e qualquer coisa que me faz lembrá-la ainda mais, tenho vontade de te mostrar. Como aquele lugar que eu ainda vou te levar, lembra? Eu sempre digo que lá é meu paraíso. E é pra lá que eu quero te levar, pro meu paraíso.
Na viagem de volta pra casa, aproveitei o tempo que embaçava o vidro do carro e escrevi, com o dedo, aquelas palavras que sempre dizemos um ao outro. Imaginei se você no ônibus faria o mesmo. Os dias deveriam demorar menos quando estamos assim, os pensamentos atordoam minha mente quando sei que, assim que chegar em casa, minha cama vai estar vazia.
Então eu simplesmente espero. Eu, agarrado à minha esperança, espero que o relógio dê mais voltas que o normal, que a noite não tarde em chegar e que o metrô corte as ruas com mais velocidade que já fez um dia.
Daí serei eu, despido de qualquer coisa que esconda meu contentamento, caminhando de novo por aquelas ruas cheias de poças, assobiando nossa música, e depois de dar passos que beiram os pulos, esperarei inquietamente o elevador alcançar o seu andar. A ansiedade é tanta que fico com vontade de escancarar a porta pra te ver.
Mas é tão melhor quando você a abre pra me atender e me presenteia com o sorriso mais largo de todo o país, minhas dúvidas se acabam alí e não há forma maior de eu me sentir o cara mais sortudo de todo o mundo.
É, você tem todo esse poder. Salva minha semana em um segundo. Você e suas famosas bochechas róseas.
domingo, 12 de agosto de 2007
Do blue ao rosa
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Bruno
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Paris
Cheguei em Paris no dia 26 de dezembro, enquanto famílias passeavam pela Champs Élysées, lá estava eu, sozinha. E foi assim sozinha que eu ficava sentada horas e horas em bancos que encontrava pelo caminho, observando as pessoas. Não há nada mais legal do que rir da mulher de casaco de pele tropeçando na calçada, do crepe de chocolate caindo da mão da criança (aquele berreiro) e do monte de turistas fazendo poses, batendo fotos e pulando de ponto em ponto, cumprindo a via sacra turística.
Naquela tal noite da Smirnoff fui para o quarto. Comi, não bebi (alguem pensou em trazer um abridor de garrafas para Paris? Eu não. A smirnoff serviu de café-da-manha do dia seguinte), e fiquei frustrada no quarto. Queria sentir a cidade, mas andar sozinha de madrugada pelas ruas estava fora de cogitação. Era meia-noite quando eu estava no metro pronta para voltar pro hotel após mais um dia de caminhada solitária, e então eles surgiram. Dois garotos falando português passaram por mim. Seria só mais dois brasileiros que tiveram a brilhante idéia de passar o reveillon em Paris. Não liguei, continuei e sentei para esperar o metro. Eles voltaram, tinham errado o caminho, e sentaram do meu lado. Daí já é demais né, não agüentei: Oi! Ficaram receosos é claro, brasileiro não é bicho muito confiável. Mas acho que afinal foram com minha cara. Graças a esses dois anjinhos que me apareceram pude rodar Paris pela madrugada toda. Tudo é mais lindo a noite, o nome cidade-luz poderia valer pela iluminação também. No dia seguinte nos encontramos, e rodamos Paris a luz do dia. Foi triste me despedir, mas alguns dias depois me encontraria com um deles em Berlim. Ele decidiu colocá-la na rota do mochilão, já que iria com uma intérprete.
Em um desses dias perdida e desacompanhada, sai para andar com os dois chineses do Hotel, que foram incumbidos de tirar minhas fotos. De pé, sentada, fazendo pose, parada. E a cada foto eles davam aquele sorrisinho típico e diziam: “ri ri ri, foto-fan, foto-fan!” Não dava pra deixar de rir. Eles só me abandonaram quando disse que iria na roda-gigante, estavam mais interessados nas lojas de carros. Entrei na fila, e logo na minha vez me avisaram: “Ô Branca-de-Neve, não pode ir sozinha não. Vou te arranjar uma família”. E eu ganhei uma família na roda-gigante, uma senhora alemã, sua filha e neta, que me mostraram tudo lá de cima, enquanto o controlador gritava lá de baixo: “Tá gostando Branca-de-Neve?”!
Ahan, gostei. Bastante. No último dia me despedi no cemitério, visitando Allan Kardec, Jim Morrison e Sartre. E voltei para “casa”, pronta pra trocar fraldas e dar mamadeiras.
Em alguns dias viajaria para Berlim. Mas essa é outra história, não tão feliz assim. Porque pra mim, Berlim sempre será uma cidade marcada e triste.
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De Lancret
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sexta-feira, 3 de agosto de 2007

As aulas começaram e teve gente que mal viu as férias passarem por causa do trabalho, outras puderam aproveitá-las perfeitamente e alguns deveriam trabalhar mas não resistiram os dias de julho e foram viajar.
Nenhum Indie Festival foi vivido por ninguém daqui e todos os membros lamentam por isso. Mas o frio de rachar em pleno inverno [sim, porque estava ficando raro] trouxe dor de garganta, gripe, espirros, tosses, rouquidão [vozes zéquizes], pessoas com roupa nas ruas e um sorrisão enorme pra quem o esperava há tanto tempo.
Com ou sem cachecol, reúna-se em volta da nossa fogueira e venha ouvir algumas boas histórias. Qualquer coisa a acrescentar ou não, engula o marshmallow e não hesite em dizer. É que boca cheia ainda é falta de educação. =]
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Susi
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03:55
Salsicha social
Um riso, alguma lágrima e qualquer palavra. Não muito mais que isso, nem em variedade de emoções e nem no aprofundamento delas. As demonstrações foram aprendidas e já parecem habituais, mas o sentimento propriamente dito é negligenciado, perdido. Não têm tanta importância. Diante de acontecimentos catastróficos mostra-se o horror, uma surpresa minuciosamente preparada por alguém estimado justifica a exaltação e a mais ínfima decepção pode ser boa razão para o pranto que perdura por semanas. Ao fim de tudo isso, a expressão imparcial domina a face e dissimula sensações anteriores.
O aspecto de desinteresse é mais uma dessas síndromes urbanas em que o auge da impessoalidade é almejado, contudo, uma vez alcançado, não pode mais ser descartado. Diversas situações parecem impor apatia às pessoas mais sensíveis, que se adaptam ao perfil e ingressam no que chamamos de sociedade. Com verdadeiras armaduras que protegem dos fatores externos de sensibilização, elas já estão aptas a encarar qualquer situação sem se abalar. Assim, quem não veria uma boa razão para buscar incessantemente pela indiferença em sua essência, que todos possuímos?! Atingir tal nível é certamente um objetivo de vida para muitos e, hoje em dia, não há nada de questionável nisso. Ou melhor, nada que alguém tenha interesse em questionar.
É cômodo estar alheio aos milhares de problemas indiretos que nos circundam, só esperando alguém mais assumir a responsabilidade para que não seja necessário um envolvimento. Os movimentos mecânicos tomam lugar de atitudes sinceras e atentas, como quando mães perguntam aos filhos se estão bem vestidas e ouvem um “sim”, sem ao menos serem olhadas. Ainda que não haja nada melhor para fazer, parece perda de tempo dar atenção para quem só pediu uma opinião. Se responder o que o outro quer ouvir é rápido e evita problemas, por que não? A honestidade aflige àqueles que entram em contato direto com ela por não estarem preparados para lidar com esse horrível golpe, então, em prol de uma humanidade menos tensa, é válida a sua extinção! Oba!
Entranhados no hábito de ignorar a presença alheia, a sociedade caminha diariamente num imenso bloco de seres à parte, um tanto robóticos e distantes. Aí, eu imagino seu movimento surpreendentemente sincronizado, já que não há comunicação, e posso ouvir o ruído dos passos conjuntos. Essa imagem me remete à cena de The Wall e eu quase consigo sentir o cheiro de carne processada em que todos acabariam se transformando no fim da longa esteira, comumente chamada de avenida. Parte de uma mesma massa, indiferente pela presença dos demais elementos e padronizada para consumo, somos salsicha, somos mortadela.
Temos mesmo um quê de coisa morta e fedida.
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Ana
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Just lie
Queria esquecer tudo e ir em frente. Seus olhos nos meus fazendo juras baixinho enquanto os dois tinham a maior certeza de que nada daquilo seria verdade. Meus ouvidos tentando captar suas palavras. Minhas mãos brincando com seus dedos enquanto eles se enrolavam no meu ombro. Meu corpo todo encolhido perto do seu. Queria transpor a física e naquele momentos virarmos um só. Caminhar com você. Engolir teu cérebro e te emprestar o meu. Descansar meu coração na sua estante.
Mas amanheceu e a luz sempre aparece pra estragar tudo. Acordamos com os corpos grudados e a cabeça doendo. Lembranças fora do lugar. E o cheiro ocupando o quarto. Sentia pesar minhas palavras e passava pomada nas tatuagens que você fez no meu cérebro.
Queria acreditar que tudo é verdade. Abriria mão da minha mania em me equilibrar na sarjeta se tivesse a certeza que você entraria nela comigo. Seria sua, se você pudesse ser meu. Mas você não pode. Não pode, hoje. Não pôde, aquele dia. E vai continuar não podendo. Simplesmente porque você não sabe o quanto é você e o quanto sou só eu.
A minha liberdade sai com as mãos no bolso. Leva todo movimento e peso que desfilo em palavras. Algumas músicas aqui sempre tocando. Lembra de quando acreditamos que seríamos para sempre. Não esquece de pegar suas coisas e fechar a porta. Levanto antes e me tranco no banheiro. Quando voltar quero meus lençóis no lugar e o seu olhar longe daqui. Não te pedi, mas você sabia. Você sempre sabe. Quando voltei você não estava. Então, me encolhi no canto tentando querer aquilo. Te querer longe. Fui até a janela para acompanhar suas costas se perder no meio da multidão. Tarde demais. Já não tinha mais sinal das suas costas e nem da minha vida naquela rua lá embaixo.
Acendo um cigarro para te transformar em só mais um. E eu sei. Você sabe. E todo mundo que nos viu também sabe. Não somos mais um. Nem para o mundo. Nem para o outro. Vasculho meu quarto atrás de uma desculpa boa para te ligar e pedir pra voltar. Não acho desculpa. Não tem nada. Nem um botão esquecido. Nem nada.
Te ligo. O som não sai, só o barulho da minha respiração, você me pergunta o que aconteceu. Te peço para vir até aqui de novo. Você diz que não dá. E não dá porque você não quer. Você tem medo. Eu também tenho. Mas prefiro assumir meus medos. Escolho meu jogo e escondo as regras. Respiro no telefone. Você pergunta o que houve e eu digo que nada.
O canto do meu quarto de novo me têm de joelhos. Ouço o trinco da porta. Levanto a cabeça e é você entrando no meu quarto. Seus olhos garantias gratuitas de que aquilo valerá a pena. Dure o que durar. Seja o que for. Lie to me, babe. We keep on going.
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Suellen Santana
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quinta-feira, 2 de agosto de 2007
A parte do que partiu
Tanto foi o barulho produzido no começo, que agora nada mais se ouvia.
As taças vazias no canto da mesa e os corpos jogados, um em cada sofá, denunciavam a noite anterior como a suspeita de que o silêncio era o bastante.
Talvez você pense que não deveria ser assim, eles eram jovens e bonitos, se gostavam demais e há tempos atrás via-se a casa cheia. Todos os cômodos repletos de amigos, bons risos, a música alta, os abraços, beijos e toda a demonstração de carinho que era distribuída gratuitamente.
Na cama, os lençóis desarrumados e iluminados pelo sol da manhã (que atravessava as pequenas frestas da persiana da janela), acusavam a noite anterior, em que o sorriso e a sensação prazerosa do sexo quase animal, procedido do orgasmo espetacular, havia acontecido ali mesmo.
Os dias eram mais leves e as obrigações menos penosas quando se amanhecia e ela sentia o cheiro dele no travesseiro. Às vezes, quando percebia, havia até se atrasado um pouquinho do horário de sair de casa para o trabalho. Mas encontrava valor nos minutos gastos ali. Ele já tinha ido mais cedo e, provavelmente, teria mantido toda cautela para não acordá-la, como de costume. O cuidado do bilhete também não fora esquecido e, como poderia esperar, arrancou-lhe mais um sorriso.
O dia terminava e o reencontro era realizado em clima de comemoração. Depois de todas as mensagens sms, os e-mails e os poucos telefonemas trocados, quando os olhos alcançavam um ao outro na distância de poucos metros, centímetros, milímetros, o coração pulava pra fora e era inevitável não ficarem felizes em vivenciar a cena tão esperada e imaginada por todas aquelas horas.
A noite certamente acabaria tão bem quanto a passada, o vinho viria junto com as juras e os planos. Seria tudo parte de uma conspiração do universo bem sucedida. O universo deles, é claro.
E assim foi. Aliás, foram muitos meses e até anos de união.
Mas no dia em que os corpos repousavam em sofás distintos, as coisas não eram assim havia um tempo. Ele conseguira uma promoção. Ela, mais tempo para cuidar da casa, deles e da vida alheia. Não que o interesse fosse grande, mas era impossível não participar do ciclo vicioso de ter muito tempo de sobra e pouco a se fazer.
Os lençóis, que mesmo sem bocas eram grandes fofoqueiros, continuavam relatando a noite passada, porém nem sempre estavam tão jogados ou bagunçados, aprenderam a ficar comportados, às vezes intactos, expondo o formato do corpo que ali estava deitado. Deitado, nada mais.
Os dias então pareciam insossos, mergulhados nos afazeres do cotidiano, era difícil ter alguma idéia brilhante ou algo que a fizesse sentir ânimo. Mas ele lhe era suficiente (ao menos deveria ser), ajeitava tudo, limpava, escrevia alguns cartões, acendia velas e o esperava para o jantar.
Ele se atrasava algumas vezes, comia pouco, assim como lhe dava atenção. Já estava na cama de novo. Ela, na cozinha, lavava a louça junto às próprias lágrimas.
O próximo dia estava chegando e logo completariam 4 anos. Era bastante coisa para ambos. Afinal, nem ele, nem ela acreditariam que a relação duraria tanto. Mas estavam juntos, deveria valer.
No dia exato da comemoração, as coisas não mudaram muito, ele saiu para trabalhar e mal beijou a testa dela. Ela acordou e ainda sentia falta de ânimo, ou qualquer coisa muito mais densa que a fazia sentir assim. Apesar de abalada resolveu consigo que sair de casa um pouco poderia lhe trazer algumas sensações até então não vivenciadas. Mas o dia não ajudou muito mesmo.
Na volta de seu passeio arrumou em casa uma pequena surpresa para ele, por mais que acreditasse que tinha esquecido. Ele demorou um pouco mais desta vez, mas chegou. Parecia estar cansado, mas, realmente, também pareceu ter se alegrado quando a viu na sala à sua espera.
Para sua surpresa, ele trouxe um buquê com algumas rosas. E foi impossível deixar de reparar no brilho em que o olhar dela alcançou. O contentamento era quase palpável. E como se não houvesse certo ou errado, tudo o que aconteceu era apenas porque deveria acontecer.
O tempo não fugiu da rega e fez questão de dissolvê-lo. De novo o tempo. De novo o vinho, que agora somente vinha para o prazer momentâneo de tentar esquecer.
Era então o sofá ocupado por apenas um. Um por cada. As taças vazias, os olhares vagos. Amanhã, quem sair por último apaga a luz e fecha a porta, larga todo o peso e tenta quebrar o silêncio. Mesmo que o último barulho seja o ranger da porta.
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Bruno
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23:54
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Caminhos e pessoas
Foi em Paris que conheci uma das tantas pessoas incríveis que passaram pelo meu caminho. Já era tarde da noite, voltava da sessão de fotos no Moulin Rouge, quando resolvi passar num Minimarket. Eu estaria sozinha num quarto 2x2 em um dos bairros mais feios de Paris, nada mais oportuno para se fazer do que beber. Enquanto procurava algum tipo de álcool identificável em francês, um sujeito-do-tipo-mendigo se aproximou. “Por favorê, você tenhê cinquentê centavês?” (leia fazendo biquinho de francês). Eu respondi em alemão que não estava entendendo (e ainda fiquei morrendo de medo de estar sendo assaltada). Ele olhou, pensou e disse: “English?”. Yes, yes. Bom, o senhorzinho explicou que estava querendo cinqüenta centavos pra completar os três euros da garrafa de pinga e, tendo ele o mesmo objetivo que o meu, não pude negar ajuda. Minha grande surpresa veio no final. Eu decidi por uma Smirnoff, paguei e estava a caminho do Hotel quando o pseudo-mendigo me chamou e correu até mim. Fodeu, agora eu seria assaltada de verdade, ele me levaria muito mais que cinqüenta centavos. E o seguinte diálogo se passou:
- Oi garota, obrigado pelos centavos. Você é alemã?
- Não, não. Sou brasileira?! (medo.)
- Brasileira?!
- Sim, sim.
- Puxa, mas então quer dizer que além de alemão e inglês você fala também PORTUGUÊS?!
(Sabe aquela musiquinha de filme do tipo descobrimento do tesouro: ta rAaaAaamm?! Ouça-a.)
O mendigo-francês-sem-dinheiro-pra-pinga sabia que no Brasil se fala Português! Sabe quais as chances de alguém acertar esse enigma?! Nulas! Nem a loira da Lituânia que parecia uma pessoa inteligente sabia disso. Aliás, a criatura pensava que falássemos inglês: “Mas ué, na América não se fala Inglês?”. Ahan, e na África africano.
Durante a passagem por Atenas conheci outro senhor, são sempre eles! Entrei numa joalheria, e o vendedor todo simpático, como todos por ali, me comprimentou dizendo algo que distoava do sorriso dele. Você já ouviu algo em grego?! Palavrões. Ele entendeu minha cara de quem não sabe se recebeu um oi ou foi insultada, e disse: “English, français, Deutsch, italiano, português?”. Duvidei: “Do you speak Portuguese?”. E ouvi num português incontestavelmente nativo: “Mas é claro que falo, não acredita em mim garota?”. Tá, tá, acredito. Papeamos por um bom tempo. Ele era brasileiro, 60 anos, tinha sido um grande jurista no Brasil. Dava aulas na faculdade, e apaixonou-se pela professora de grego, uma “deusa-grega”. Casou, teve dois filhos. Moraram 20 anos juntos no Brasil, mas a esposa sentiu saudades de casa. Ele largou tudo, e mudou-se com a família para Atenas. Disse sentir-se triste, as saudades do Brasil são enormes, mas faria tudo de novo, por ela.
As pessoas mais especiais que conheci foram as do meu curso na Alemanha. Estrangeiros de toda parte do mundo, lutando para aprender uma língua difícil e viver num país estranho. A garota da Túnisia, 28 anos, sempre com All Star e um sorriso no rosto, nunca-a vi mais feliz do que no dia que mostrou seu álbum de casamento, duas vestes típicas e 5 dias de festança. O casal Polonês que tinha uma vida dura, sem casa, sem emprego, e um filhinho de cinco anos que aprendia alemão mais rápido do que qualquer um ali. A peruana, 20 anos, foi para a Alemanha ser Au-pair, se apaixounou pelo Host divorciado, eles se casaram e ela nunca mais voltou para casa. Minha grande amiga grega, que largou tudo em Atenas para vir morar com o namorado que não tinha certeza se amava. E minha professora, Dorothea, casada com um peruano, insistia em discutir o aquecimento global e suas conseqüências em nossos países, e vivia me perguntando “qual é aquela palavra bonita em brasileiro?”:
- Saudades, Dorothea, em português.
Saudades.
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De Lancret
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