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domingo, 23 de novembro de 2008

Edicion sin número

Desculpe o transtorno.
Susi está temporariamente capenga por conta de provas, trabalhos, problemas financeiros, viagens, contradições familiares, conflitos amorosos, falta de idéias, conexão ruim e qualquer outra desculpa que caiba.
Agora escreve aqui quem quer, como quer e quando quer ;-)
Viva la liberdad.
Viva la anarquía.
Beso Beso

Here, making each day of the year


MixwitMixwit make a mixtapeMixwit mixtapes



Uma vez por mês eu entendo toda a humanidade, o jeito que todo mundo anda sem fé ou esperança no futuro, que banalizam o amor, que esquecem a simplicidade do sorriso de uma criança. Uma vez por mês eu entendo e sou como todos os outros. Me falta esperança, fé e vontade. Nesse mês, o meu dia de me sentir igual, veio depois de um em que me senti diferente. Esperança de que toda vida se encaixaria naquele melhor sorriso, que nada importaria tanto assim, que todo esse desencontro era armadilha da vida para armar algo maior e mais bonito. Um dia antes do meu dia de todos os outros, me senti feliz e acolhida por um lugar que já reconheci como parte da minha rotina, que fez de algum dos meus dias os melhores, perto de quem fez de toda diferença, equilíbrio. Um dia antes do meu dia de todo mundo, eu consegui dormir uma noite inteira calma, com sonhos doces dos quais não me lembro, mas eram doces, isso eu sei.

Depois do meu dia de todo mundo. Dormi poucas horas um sono agitado e cheio de pesadelos. Um maldito rato, que a maldita pessoa que estragou tudo apareceu para brincar, uma cobra e um leopardo em um restaurante moderno demais, todas essas coisas que sendo hippie o suficiente para pesquisar o significado dos sonhos, simboliza falsidade. Uma vez por mês, eu sinto medo, não só de mim, como é habitual, dos outros, sinto medo de todos que não entendem absolutamente nada das diferenças, dos que banalizam os sentimentos, da indiferença que você se veste. Uma vez por mês eu sinto algumas coisas, ruins.

Uma vez por mês, eu sinto uma vontade absurda de ouvir Cranberries até o mundo acabar. Sabe, o que é? Uma vez por mês eu quero que o mundo acabe. Meus sentimentos se explodão. A verdade caia como uma luva nas suas mãos. Os sonhos se desfaçam. E a esperança morra. Devia querer isso todos os dias, mas eu li Pollyanna demais, percebi cedo que só os riscos valem a pena na vida e viver sem eles, é a inércia que torna os dias previsíveis, demais, para mim, que não sei viver assim. Mas, uma vez por mês, eu sei.

Eu continuo, dia após dia, testando os limites das palavras. Confissão, impulso, uma falta completa de razão, uma vida inteira de emoção, uma das nossas eternas diferenças é que eu não sei esconder o coração, eu já te pedi para me ensinar, mas essa é uma das coisas que você me negou com um sorriso. Uma vez por mês, eu queria ser diferente, só para não ser assim todos os dias. Uma vez por mês, eu tenho TPM e canso da fé. Sempre, uma vez por mês.



ps. pós turbilhão de pesadelos da madrugada do dia 30 de novembro.

C'mom Baby Say Bang Bang

Queria um revolver que cantasse a cada disparo. Que resolvesse alguma coisa a cada furo. A cada puxada de gatilho uma inspiração. A cada coisa que tombasse, uma nova se erguesse.

Bonito e com um tambor barulhento, quase carnavalesco, que tocasse uma melodia nova cada vez que fosse acionado. Que girasse com suavidade, batesse com força e explodisse como fogos de artifícios.

Em cada bala uma doçura capaz de curar um corpo cansado. De dar um descanso aos que merecem. Que cuspisse confeitos capazes de ferir pessoas amargas, sem gosto e com vida.

Um tiro, um sonho, saraivada de balas, doces ou azedas. Qualquer coisa que tire o gosto ruim o que dê um gosto melhor para uma vida sem sabor.

É esse o revólver que eu quero, por favor, posso ter um deste?

domingo, 19 de outubro de 2008

34º Edição

Após brincar com cartas, se divertir com sexo, alçar longos vôos, se assustar com buracos e jogar com a vida, chegamos na última rodada de temas. E nada melhor do que um pouco de música para finalizar.

As regras são as seguintes: o nome da música é o título do texto; pelo menos três frases da música devem ser inseridas em itálico; e não há assinatura.

Dê o seu palpite no fim da leitura.
Decifre o gosto musical e a identidade literária de cada um.

E, mais do que isso, divirta-se novamente!

=)

Never is a promise

Cada dia dentro daquilo que por falta de tempo deixamos de nomear. Um caso, foi assim que alguém definiu dia desses enquanto eu sorria de uma coisa qualquer. Você nunca verá a coragem que eu conheço, a riqueza das cores dela não aparecerá dentro de sua visão. Queria ter dito isso enquanto te acusava de muitas coisas. Muitas coisas. Meus dias inconstantes e o jeito que você me equilibrou. Faz falta você me entendendo. Mas, eu me perdia para fazer parte de algo que você nunca soube fazer existir. Eu existia sozinha por dois. E mesmo assim, ficava ali, parada, esperando o dia que você me aceitaria na sua vida. Mas a espera cansou. Você dirá que nunca me deixaria cair de esperanças tão altas. Mas 'nunca' é uma promessa e você não dispõe de meios para mentir. Você dirá que entende, mas nunca entenderá.


Reconquistei meu espaço em outros sorrisos. Encontrei toda
minha forma torta de enxergar a vida em outros olhares. Me encontrei. Mas ainda faz falta você. Talvez seja o costume se desprendendo, os hábitos acabando e o medo de perder para sempre.

Esbarrei na nossa história enquanto escolhia músicas e revirava um livro atrás de uma frase esquecida. Você nunca ouvirá a mensagem que eu mando. Você dirá que parece tão ruim como se eu estivesse desistindo desta luta.

Faz tempo que eu não acordo de madrugada sufocada por sonhos. E a vida tem me feito respirar enquanto meus pensamentos sorriem das minhas dúvidas. Eu percebo que eu sou agora muito esperta para mencionar você.

Um novo começo. Você dirá que nunca desistirá de olhar olho no olho. Mas enquanto o cenário cresce, eu vejo em luzes diferentes.


imagem:
http://www.flickr.com/photos/_girlwithcamera/

snuff.

Enterre seus segredos na minha pele. Vá embora com a sua inocência e me deixe aqui com meus pecados. O ar a minha volta é uma prisão, e o amor é só uma camuflagem para o ódio. Dói pensar que você não faz mais parte da minha vida. De que cada vez mais, quem eu me importo, não faz mais parte. Como peças que não se encaixam de um quebra-cabeça misturado, todos se cansam e vão embora. O quintal limpo e vazio aceita meus joelhos e minhas lágrimas inundam a solidão. Eu me despedi sabendo que você não voltaria mais. Pouco tempo depois fiquei feliz por sua passagem, então me senti culpado. Eu não queria te dizer adeus.

Antes de todo ódio inventado, você dizia me amar. Eu ainda leio suas cartas como se fossem as orações que vão me salvar. Eu te afastei porque eu também te amo, e não posso destruir o que não existe. Então se você me ama, me deixe ir e corra antes que eu perceba. Talvez eu não teria chegado até aqui sem sua luz, mas tudo se partiu porque meu coração é sombrio demais pra enxergar ou me dar forças pra lutar. Os anjos mentem para manter o controle. Você me vendeu para se salvar. Mas isso não muda o que eu sinto por você.

Engula o ar e se afogue, então saberá, por poucos segundos, como eu me sinto a vida inteira. Eu achei que esse dia nunca fosse chegar. Achei que fôssemos pra sempre, no nosso próprio mundo. Depois das perdas recentes, eu me sinto inseguro, como se ninguém entendesse o que eu falo. Ou somente valorizasse doces mentiras em charmosas perfídias, será que é isso que preciso fazer? Bata de frente com as pedras, eu só gostaria que você não fosse minha amiga. Então eu poderia te machucar no final.

Meu sorriso foi tirado há muito tempo atrás. Se você nunca percebeu, espero que nunca perceba, então posso ter alguém. Se eu conseguir mudar, eu espero nunca saber. Tenho tido uns sentimentos estranhos que comprimo em minha dor. Eu não mereço ter você. Espero que você nunca saiba. Assim eu poderei destruir tudo, de novo...






domingo, 5 de outubro de 2008

33ª Edição

Como nos dados, aqui temos seis lados, todos eles diferentes e cada número corresponde a um momento de sorte (ou não).

Contrariando as leis do Brasil que proíbem a jogatina, o Susi traz nessa edição os jogos, de azar ou não. Vale qualquer um.

Vejam como cada um associa as brincadeiras, os jogos, o passatempo com a vida.

Por passatempo, ainda em tempo, a todos os lados.
=]
Os seis:

Por um bom jogo

Várias pessoas que passaram pela minha vida são como as cartas de um baralho, mesmo agrupadas não valem muita coisa. No pife é preciso três trincas para ganhar o jogo, mas muitas vezes ganhar não significa que foi uma bela jogada.

Muitas pessoas que conheci foram descartadas, joguei no monte porque não tinham utilidade, outras eu troquei, só pra fingir novidade, mas não adiantou. Algumas das cartas que tenho só permanecem na mão porque não tive chance de descartar por algo melhor.

Entendam que essa comparação pode parecer fria e arrogante da minha parte, mas sou sincera e não sei ser demagoga, sinto dessa forma. No pife é obrigatório ter nove cartas, na vida não tem número estipulado, mas é de bom senso que não fique sozinho por completo. Regras da vida, regras do jogo.

Fazer um trio de cartas iguais é fácil, difícil mesmo é fazer um jogo na seqüência e ainda bater
com as dez. Isso é bonito e vale à pena. Eu estou com um bom jogo atualmente. Tenho cartas na seqüência, que se completam e quando olho para elas eu penso "Porra, se tudo der certo eu ganho esse jogo", mas na verdade eu não quero isso, se eu ganhar, a jogada termina e começa uma nova e com isso mais pessoas, mais naipes sem combinação, mais cartas incompletas.

Eu tenho cartas
inúteis, mas compensa ficar com elas do que perder a minha seqüência, porque lembra da obrigatoriedade das nove? Então eu prefiro conviver com os descartáveis a ver as minhas especiais no monte, porque a força do jogo está na união delas e não na individualidade.

A amizade, assim como o pife, é plural. Sem o conjunto são apenas um grande baralho de pessoas descartadas.

War, em um tempo de paz


Olhava a vida como aquele tabuleiro, garrafas e cinzeiros na mesa, os sorrisos em todos os rostos. Aquele papelão divido em seis regiões e a minha vida da mesma forma. Família, carreira, amigos, sonhos, realidade e amor. Contrariava todas as leis dos homens quando sonhava em silêncio e me esquecia naquela paz divida com pessoas levemente conhecidas. Sempre precisei do inevitável se apresentando aos meus olhos infantis. Minha malícia é piada e minha arma principal é o sorriso.

Cada uma das regiões guiadas pelo número de exercítos, de pessoas, de povos, de amigos, cada parte da minha vida é preenchida exatamente como naquele tabuleiro. Cada um tem a função principal de ser um.

Minha família era a parte turbulenta e a minha região de paz. O sorriso da minha irmã. As diferenças com minha mãe. O jeito calmo do meu pai. Demais para serem poucas palavras.

A carreira sempre ocupou um espaço enorme dos sonhos, ali eles também estavam um ao lado do outro. Diante deles o amor. Esse mesmo amor que sinto por todas as pessoas e histórias, pela coragem e pela vida, o amor sem preconceitos, pela liberdade e pela diferença, por tudo que é igual em um ponto só. Por tudo que é diferente em vários outros. Por todos os caminhos. O amor que me faz andar ou parar.

A realidade esteve o tempo inteiro por perto, era tudo um bloco só. Amor, sonho, amizade, trabalho, carreira e a realidade. Porque eu amo tudo que vejo como real mesmo que pincelado de sonhos. E o resto eu só suporto porque é real demais para ser ilusão. Como o abraço sincero de um amigo.

Os amigos dominavam o tabuleiro inteiro. Representavam os continentes e me mantinham diante dos outros lados. Guardavamos tudo em sorrisos. Era a nossa maior arma de guerra. Meus amigos são aqueles que sabem rir de si mesmo, homens ou mulheres que sabem o valor de ser autêntico. São aqueles livres de todos os preconceitos. São os que me fazem sorrir. Os que me dão noites intensas ou calmas. Amizade é o lugar que escolhi para estar. Sempre.

O jogo não acabou. O tabuleiro foi virado pelo vento ou por algum estabanado. Sorrimos por fim. Era tudo isso. Como em uma guerra, só procurávamos a paz.

Sedução

Com as peças em seus devidos lugares, inicio a primeira ação. A situação já foi analisada e revista, a estratégia não é simples, porém o resultado vale os obstáculos a se percorrer. As brancas começam, a rainha está a postos e o meu objetivo: o rei.

De passo em passo me aproximo. As táticas deixam tudo muito óbvio logo de início. Uso todas minhas armas para te fazer crer que, nessa partida, eu sou vencedora. Você não se faz de díficil. De peça em peça me aproximo.

Sem o dominío do tabuleiro, você se sente encurralado. Pare de fingir que tem alguma chance! Eu sei que você quer que eu ganhe. Os obstáculos não me detêm. Dê mais sentido às construções, derrube teus muros que eu tomo tua torre.

O pragmatismo é decifrável, fuja do simples. Suas crenças se desfazem enquanto você se movimenta. Não tente recuar, um peão não tem esse direito. Tome seu lugar neste tabuleiro. Só será rei quanto eu te nomear. No meu jogo é a rainha quem controla, deixe-se levar.

Não ande em círculos, meu querido, posicione-se corretamente, não se perca na jogada. Você sabe das minhas intenções, liberte seus instintos. Estou chegando ao ponto, talvez seja sua hora de me capturar.

São três opções: fuja e mova-se para o jogo de outrem, invente a segunda peça e me faça parar, ou me capture antes que seja tarde demais. Joguei as rédeas em tuas mãos, qual será a decisão?

Xeque-mate.

Desde o inicio você já era meu.







Pif -Paf


Começava a partida com os cotovelos cravados na mesa e um olhar desafiante que não impunha medo a ninguém. A cada carta que recebia, tentava passar convicção de que tinha o jogo ganho na arrogância do sorriso pendurado ao lado esquerdo da boca.

Ele renovava a petulância sempre que notava uma jogada inferior a sua, bem diante das suas mãos, e isso já era suficiente para os comentários audaciosos e a exibição daqueles dentes amarelos. Para movimentar umas poucas cartas, fazia uma encenação interminável e o jogo acabava nele para recomeçar exausto com o próximo jogador.

Os demais na mesa se afogavam em repulsa dentro de um copo amarelado enquanto o imbecil representava. Desejavam ganhar ou perder, desde que a criatura não tivesse a oportunidade de comemorar sua vitória, e torciam por qualquer outro rival, indiferentemente.

No decorrer da partida, ficou evidente o fracasso geral dos insatisfeitos e tornava-se iminente o momento sacal do discurso vencedor. Antes dele, uma cadeira foi ao chão.

Com o corpo estendido, o otário recebia de peito aberto os copos cheios e as cinzas de cigarro, que estavam na mesa e agora caíam sobre ele. Pessoas contentes, pela primeira vez desde o início do jogo, sorriam e chutavam o estorvo. Cantavam e dançavam em homenagem ao bom espírito das competições.



*Imagem: Arthur Rackham - Public Domain

Guerra de Plástico

- Corram! - Ouviu-se gritar de algum lugar do tabuleiro até que a voz fosse tomada por motores de aviões e metralhadoras. BOOM! Pronto, a explosão se fez destruindo um exército inteiro. Assim, fácil fácil assim. - Troca dez pequenos por um soldado grande aí vai. - Não deu tempo. Nem sempre é justo - três contra um em Vladvostok.

Tudo gira em torno de sorte e muita estratégia. Os campos tomados por Morte definem e peneiram os mais fortes. As cores se desfazem à medida que o cansaço impera com o tempo, a ferida dessa batalha chama sono, que falha a atenção e cava a cova pra enterrar-se nas cobertas. O jogo da Guerra não tem dó, e os dedos dos jogadores impiedosos estão carregados com os Dados prontos para atirar. - FOGO!

Exilados vão sem Destino de um lado para o outro com algumas cartas na mão, mas o objetivo se torna obsoleto. Alguns pedaços do mundo que nada mais significam quando se está desesperado e tomado pela esterilidade. Os Zumbis rodeiam a mesa apenas pelo instinto de sobrevivência, ninguém quer ser o primeiro! Mantém os poucos soldados e um copo de Coca-Cola quente e tão no final quanto suas alternativas esperando alguém vacilar e, quem sabe, o jogo não vira? Há fé, e por que não? Já que os Dados são Deuses de mão em mão, e o copo pode voltar a se encher.

Conquistar territórios. É disso que se trata o objetivo. Dados que definem quem vai, quem fica. Ninguém morre em peças de plástico, aqui a Morte não dói no coração de ninguém nem deixa rastros. Mas todos deitam fracassados montando uma pilha inodora enquanto o vencedor escala o topo.

Se a diversão chama "Guerra", divirtam-se.

domingo, 21 de setembro de 2008

32ª Edição

Buenas, "amantes" da "boa leitura".

Esta edição do Susi tem como tema uma imagem, e só.
As seis gracinhas vão ter que se virar e se infiltrar em seus pensamentos mais obscuros para decifrar e criar a partir de uma arte chamada "The Hole Theory", do Tcheco Jan Dosedel (a.k.a Absolute-naut).






Portanto, sem mais delongas, vamos aos seis:

Extrato


Conhecendo de antemão o prestigioso futuro ao qual rumava, começou a se questionar sobre o lucro do grande sucesso com a comemoração solitária. Aspirava promoções, contatos importantes, resultados financeiros, imensa visibilidade e recorrentes superações de metas diminutas.

Por entre corporações e finanças em um escritório humanamente inóspito, produzia maquinalmente e refletia o espírito que lhe era esperado. Ganhava remunerações exorbitantes pela colaboração e, pouco a pouco, o tato que lhe ainda mantinha as cédulas à mão se esvaia.

Na cadeira de seu cubículo, acreditava em congratulações mais expressivas pelo seu empenho e ansiava por ser visto individualmente por alguém também avulso. Estava à disposição de um humano desconhecido para distinguir o comportamento dessa espécie. A ambição tinha o acompanhado por toda a vida, mas agora se resumia a um sonho de desconstrução para que dela se constituísse algo mais sensato.

Perdia a fé nesta pessoa ilusória capaz de lhe recolocar em uma esfera real e sensível, enquanto se aprisionava cada vez mais no desespero. Foi por temor que insistia em se manter intacto com tal desapontamento. Foi para não esquecer ou desistir da liberdade almejada, que se conservou desumano na fortaleza.

Como um mal estar estabilizado no organismo já doente, embrulhava-se com a mera finalidade não ser desintegrado. Expunha ridiculamente o seu pedaço que demandava remoção.

Fugas do presente

De repente tudo se parecia com a imagem daquele livro que acabei de deixar na mesinha. O telefone não tocava. Os meus sonhos não falavam. A vida parecia ter sido esquecida dentro de um buraco muito parecido com o pintado naquela parede. O medo da felicidade tinha me deixado próxima demais desse desenho, desse presente que fingi gostar.

A janela fazia o seu papel. Encostada na parede ao lado dela, com um copo nas mãos e os cabelos presos, observava a rua vazia e a cabeça parecia voltar para aquela imagem que tinha mexido comigo de um jeito incomodo e frio. De repente tudo fazia sentido. Os olhos daquela pessoa enrolada em um plástico ou pano, qualquer coisa estranha demais para ser descrita, era o jeito que me vestia e me cobria do mundo, uma alma transparente. A cadeira vazia era como fugia do que era cômodo. A escrivaninha guardava minha vida em gavetas e portas fechadas, com palavras e fotografias. Só não queria encaixar aquele buraco preto. Não queria comparar nada de mim com aquilo. Muito menos, com aquele desenho.

Queria correr, mas só tinha a janela, talvez fosse impossível.



Só consegui fechar o livro e sorrir. Nada daquilo disse algo que não soubesse... Estava errada e fim.

O Buraco

Arranhei a parede em busca de um aborto
Com os dedos em carne e sangue,
Me abracei na procura de conforto
Do lado de cá é tudo muito abandonado
E fico preso sempre aqui do outro lado
Minha sede pede água e eu apelo à trégua
Nada além de mágoa na ausência que me cega

O que eu quero não tem nome
Não tem definição
Estou preso em mim mesmo
Nessa minha obsessão

O portal da liberdade,
Ou o início da prisão
Mofo junto com as paredes
Aguardando uma decisão

O buraco que liberta
Que esconde e alimenta
O buraco é a meta
Minha vitória lenta
Sem objetivo

Não sei se já morri
Ou se ainda estou vivo

O que acontece agora?
Me diz o que tem de errado
Me diz o que tem de errado em mim
Aqui dentro do lado de fora
Não sei se é o começo
Ou se já cheguei ao fim

Growing Inside

Depois de algum esforço conseguiu abrir os olhos que pareciam colados. Era tudo escuro. O ar estava morno e meio sufocante, só conseguia sentir sua respiração que voltava assim que ele expirava. Alguma coisa envolvia todo seu corpo, como se fosse uma massa que delimitava seus movimentos.

Talvez estivesse sonhando, mas não sabia o contrário de um sonho. Não lembrava de sua vida. Não sabia como era chamado pelos... outros? Será que ele era parte de uma composição de pessoas? Um grupo? Porque estava ali? O que significava aquilo? Ele estava ofegante e o ar ficou mais quente. Sentiu algo descendo pela testa. Estava suando e tentava recordar seu nome, mas não conseguia.

Percebeu que podia mexer os dedos e conforme se movimentava ouviu algo romper, um barulho fino, delicado e de repente sentiu farelos e pequenos pedaços. Um cheiro artificial, que como tudo naquele momento, ele não sabia o que era, parecia areia. Continuou movendo os dedos, pois era só o que conseguia fazer. Depois de um tempo já podia mexer ambas as mãos e tinha um espaço considerável. Tateou o que pôde e tudo ao seu redor era duro e áspero.

Agora já conseguia bater com os punhos fechados, não sabia por que, mas precisava se desvencilhar daquela coisa que o abraçava e o segurava ali. Talvez se lembrasse de quem era ou talvez soubesse que não era ninguém. De alguma forma saberia algo. Continuou.

Ouviu um ruído mais forte, algo estava rachando. Continuou batendo os punhos. O barulho ficou mais intenso, alguma coisa estava sendo destruída. Uma luz mínima amarelada. Socos. Já tinha espaço para mover as pernas. Joelhadas. Chutes. Chutes. Socos. Raiva. Suor. Raiva. Raiva. Raiva. Caiu.

Nasceu. Os olhos tentavam ver além do bege morto de um quarto. A cadeira de criança já não servia e o armário não abria. Estava pelado, mas não tinha frio, na verdade não tinha nada, só as lembranças que estavam surgindo, mas não confortavam nem um pouco.

Lembrou da escolha que mudou sua vida. A rejeição sofrida na infância resultara no recolhimento. Tinha se trancado no quarto. Preferiu ficar entre as paredes e ser criado novamente, até querer nascer de novo. Ser parido por elas. Duras, frias, caladas, mas presentes. Não mais um rejeitado, não mais um qualquer, mas sim um filho das quatro paredes. Enfim alguém.

...schopny růst uvnitř...

Casulo

Há aproximadamente dez anos atrás eu comecei meus estudos. Muitos diziam ser ridículo, gênios diziam ser uma lenda, filósofos romantismo, psicólogos alucinação, matemáticos indecifrável, mas conforme meus testes e analises a probabilidade existia e, portanto, era uma teoria a ser estudada. Einstein já havia desacreditado tal fenômeno em 1939, quarenta anos depois eu procurava comprovar o contrário: das estrelas nascem os buracos.

Dias e dias no laboratório, sem comer dormir viver. Minha energia era comprimida junto aos astros, as fusões nucleares o criavam e me destruíam. A cada passo errado, os cálculos iam para o espaço, minha cabeça explodia e eu sentia que o tal buraco negro só se formava em minha cabeça.

Horas e mais horas de dedicação. Meu peso diminuía conforme a massa das estrelas ultrapassava o sol. A densidade se colocava contra o volume, me atraindo para o caótico breu imaginário. Toda luz captada o fazia cada vez mais negro. Meu cérebro, o tal buraco.

Assim como toda a matéria era extinta, minha sanidade corria perigo quanto mais eu me aproximava de soluções. Teoricamente, o astro exerceria forças que destruiria agressivamente qualquer corpo. Só a distância me separava desta energia, minha mente já trilhava o caminho rumo ao fim. Como resultado, a auto-degradação de uma mente fértil.

A lagarta não se transformou em borboleta. Não resisti à morte de minhas estrelas, o buraco me engoliu por inteiro.

domingo, 7 de setembro de 2008

31ª Edição

Esta edição se dedica a um dos sonhos mais corriqueiros entre as pessoas: o icônico e libertário desejo de voar.

Por medo, ambição ou mera curiosidade o vôo é recorrente no universo onírico e, aqui, se materializa em seis versões destes que carregam a Susi - e talvez já pensem em arremessá-la do pedestal.

Então aproveite e se jogue também, baby!



beijo e até a próxima quinzena
;]

Longe, acima do mundo


Era um fixado, cujas raízes lhe haviam sido recentemente arrancadas, que ouvia uma fábula, dessas geralmente contadas para crianças com a intenção de passar uma lição moral. Deixou a sala com um bilhete aéreo em mãos, somente de ida.

Take your protein pills and put your helmet on

Corria para longe de casa porque tinha pressa em dar os últimos passos antes de embarcar em busca da causa maior que havia procurado até então. Sem grandes ambições, afinal era um projeto pessoal, ele entrou no aeromodelo que o levaria para a experimentação de um devaneio.

Assim que perdeu o contato indireto com o solo ao qual esteve preso por tanto tempo, ele se percebia pela primeira vez de maneira avulsa e capaz de envolver efetivamente o seu contexto. Abriu a porta e se adentrou na lasciva sensação de pertencer a alguma coisa, sem que estivesse dependente ou preso a ela. Era único, em reciprocidade com o que estava ao seu redor.

Now it’s time to leave the capsule if you dare.

Voava de um jeito particular e notava o céu como se ele nunca tivesse estado ali. Mergulhando sem fim naquilo que julgou ser o maior objetivo que poderia ter para toda uma vida, imaginava que era um dos poucos a se realizar tão completamente. Quiçá o único, pois ele já não distinguia em toda a paisagem que o ambientava, alguém tão avulso quanto estava que compartilhasse de tamanha liberdade.

I'm feeling very still

O sentido se esvaia e a queda chegava ao fim com a aproximação do chão. Num vácuo, ele clamava pelo fim do sonho explicando ter ocorrido um "erro técnico", de uma expectativa mal planejada.

There’s something wrong.

Can you hear me, Major Tom?
Can you hear me?


* texto baseado na música do David Bowie, Space Oddity.